05 junho 2010

Ecologia nos Documentos da Igreja Católica

capela de nossa senhora mãede Deus e dos homens
Frei Ludovico Garmus
Introdução

Abordar os aspectos do Documento de Aparecida (DAp), relacionados com a ecologia, no espaço de uma comunicação[1], só é possível de uma maneira geral. As considerações que encontraremos no Documento de Aparecida serão mais compreensíveis supondo uma caminhada da Igreja Católica como um todo – e mesmo de outras Igrejas – nos últimos quarenta anos. Poderíamos colocar o DAp no contexto mais amplo das discussões ecológicas da sociedade planetária ou global, isto é, dos Organismos Internacionais (ONU) e Conferências de caráter ambiental. Poderíamos trazer e comentar textos elaborados pelas Conferências Episcopais de vários países, regiões ou continentes[2]. Poderíamos abordar pronunciamentos sobre a crise ambiental de outras Igrejas cristãs, a nível internacional e nacional. Poderíamos citar documentos e pronunciamentos relacionados com as preocupações ambientais de dezenas de dioceses e regionais do Brasil. Tudo isso haveria de enriquecer nosso texto, mas extrapolaria as possibilidades e os objetivos ora traçados. Para nossas finalidades, achamos por bem ater-nos aos pronunciamentos dos Papas e do Vaticano e a outros documentos pontifícios, aos pronunciamentos e documentos mais importantes do Episcopado Brasileiro e aos documentos oficiais do Episcopado Latino-americano.

Magistério Eclesiástico e pronunciamentos do Papa

1.1. Concílio Vaticano II: Gaudium et Spes, n. 37; 64, 69, 70

A problemática da ecologia não era ainda uma preocupação dos padres conciliares. Também não era de se esperar que o fosse, pois o assunto ainda não estava na pauta das discussões da sociedade. Mesmo assim, na Gaudium et Spes (GS) alguns acenos indiretos aparecem. Fala-se de mudanças profundas e rápidas que se estendem progressivamente ao universo inteiro, provocadas pela inteligência e atividade humanas (n. 4). Lembra-se que o ser humano foi criado à imagem de Deus (n. 12 e n. 34), “constituído senhor de todas as coisas terrenas, para que as dominasse e usasse, glorificando a Deus” (cf. Gn 1,26; Sb 2,23; Eclo 17,3-10), e que Deus fez boas todas as coisas (Gn 1,31). A atividade humana, porém, foi corrompida pelo pecado (n. 37). Mas, “remido por Cristo e tornado criatura nova no Espírito Santo, o homem pode e deve amar as próprias coisas criadas por Deus. Pois ele as recebe de Deus e as olha e respeita como que saindo de suas mãos. Agradece ao Benfeitor os objetos criados e os usa para o seu bem, na nobreza e liberdade de espírito. É assim introduzido na verdadeira posse do mundo, como se nada tivesse, mas possuísse tudo. ‘Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus’” (1Cor 3,22-23). Mas a esperança de um “novo céu e uma nova terra” (2Pd 3,13; Ap 21,1-5; Rm 8,19-23), “longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra” (GS 39).

Um dos princípios lembrados pelo Concílio Vaticano II é o do destino universal dos bens, princípio este que sempre de novo voltará em documentos sucessivos da Igreja: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob as regras da justiça, inseparável da caridade” (GS 69). Por isso, os mais ricos têm a obrigação de socorrer os pobres não somente com o que lhes é supérfluo. As decisões sobre a vida econômica devem atender às necessidades individuais e coletivas da geração presente. Por outro lado, é preciso “prever o futuro, estabelecendo justo equilíbrio entre as necessidades atuais de consumo, individual e coletivo, e as exigências de inversão de bens para as gerações futuras” (GS 70). Assim, aqui já está delineado o tema, que será mais tarde discutido, do “desenvolvimento sustentável”.

1.2. Paulo VI e suas preocupações ecológicas

Já em 1967, Paulo VI, na Populorum progressio[3], falando do progresso dos povos, coloca um dos princípios que ainda hoje podem nortear as atitudes humanas diante do meio ambiente. Diz ele: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós” (n. 17).

A partir da década de 1970, a Igreja tem acompanhado a questão ecológica com assiduidade. Destacamos alguns trechos da mensagem do papa Paulo VI às Nações Unidas, que reforçam as preocupações da comunidade mundial reunida para esta conferência[4]: “Hoje, de fato, há maior consciência de que o homem e o ambiente em que ele vive são mais do que nunca inseparáveis”. Insiste o Papa na necessidade de respeitar os limites da regeneração da natureza: O homem deve “respeitar as leis que regulam o impulso vital e a capacidade de regeneração da natureza; ambos, portanto, são solidários e compartilham um futuro temporal comum”. Dependendo do modo como agirmos com a natureza, serão “os fatores de interdependência, para o melhor ou para o pior, para a esperança de salvação ou para o risco do desastre”. O homem já se tornou uma ameaça para si mesmo, com suas armas atômicas, químicas e bacteriológicas. E o Papa se pergunta: “Mas como se hão de ignorar os desequilíbrios provocados na biosfera, devidos à exploração desordenada das reservas físicas do planeta, até com o propósito de produzir os bens úteis, como, por exemplo, o desperdício dos recursos naturais não renováveis, a poluição do solo, da água, do ar e do espaço, com os consequentes atentados contra a vida vegetal e animal?” A técnica pode ser usada para minorar os males já causados ao ambiente. “Mas todas as medidas técnicas serão ineficazes – frisa o Papa – se não forem acompanhadas por uma tomada de consciência da necessidade de uma transformação radical de mentalidades”. Paulo VI aponta a figura de São Francisco de Assis como modelo para nossa relação com a natureza: “Como poderíamos deixar de evocar aqui o exemplo imorredouro de São Francisco de Assis e deixar de mencionar as grandes Ordens contemplativas cristãs, que oferecem o testemunho de uma harmonia interior, obtida no âmbito de uma comunhão confiante nos ritmos e nas leis da natureza?” Por fim, partindo da frase de Paulo a Timóteo: “Toda criatura de Deus é boa” (cf. 1Tm 4,4, que repete Gn 1), o Papa diz: “Governar a natureza significa, para a raça humana, não destruí-la, mas aperfeiçoá-la; não transformar o mundo num caos inabitável, mas numa bonita casa, ordenada no respeito por todas as coisas”. O ambiente natural não deve ser objeto de apropriação pessoal exclusiva, mas é um bem comum, um patrimônio da humanidade.

Paulo VI, no seu discurso por ocasião do XXV aniversário da FAO (Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação, 22/11/1970), elogia os grandes esforços desenvolvidos para um melhor aproveitamento das terras, águas, florestas e oceanos, que resultaram em maior produtividade das culturas, no melhoramento da fertilidade do solo, com o uso racional da irrigação. Adverte, porém: “O ritmo acelerado, a realização concreta destas possibilidades técnicas não se verifica sem causar nocivas repercussões no equilíbrio do nosso ambiente natural, e a deterioração progressiva daquilo que convencionalmente se chama ‘meio ambiente’, sob o efeito dos contragolpes da civilização industrial, corre o risco de acabar numa verdadeira catástrofe ecológica”. E cita alguns danos já causados: a qualidade do ar e da água potável, a contaminação de praias e oceanos e a ameaça de equilíbrio de várias espécies. Enfim, o homem causa desequilíbrio à natureza, posta à sua disposição pelo desígnio amoroso de Deus (Sl 65,10-14). O homem ao longo de milênios “aprendeu a submeter a natureza, a dominar a terra (Gn 1,28)... Agora, soou a hora de ele dominar o seu próprio domínio”[5].

Em 1971, na Carta Apostólica Octogésima adveniens[6], volta a advertir para as consequências dramáticas provocadas pela atividade humana: “De um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação. Não só o ambiente material já se torna uma ameaça permanente – poluições e resíduos, novas doenças, poder destruidor absoluto – é o mesmo quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã um ambiente global, que poderá tornar-se insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz respeito à inteira família humana... O cristão deve voltar-se para estas percepções novas, para assumir a responsabilidade, juntamente com os outros homens, por um destino, na realidade, já comum”.

Na Bula Apostolorum Limina (1974) sobre o Ano Santo[7], entre os problemas que perturbam a humanidade e deveriam ser iluminados pelas celebrações do Ano Santo, Paulo VI cita “desde os econômicos e sociais aos da ecologia, passando pelos das fontes de energia, da libertação dos oprimidos e da elevação de todos a uma maior dignidade de vida”.

Em nome do Papa Paulo VI, o delegado do Vaticano à Conferência mundial da população, convocada pela ONU (01/09/1974), lembra que, segundo dados técnicos, existem possibilidades de criar recursos alimentares e recursos energéticos para uma população muito maior, mas os países ricos, que consomem 80% da energia disponível precisam mudar seu estilo de vida consumista, deletério para a natureza e o ambiente[8].

1.3. A ecologia nos pronunciamentos do Papa João Paulo II

Cinco meses após a eleição, o Papa João Paulo II publica a Carta Encíclica Redemptor hominis (04/03/1979), na qual já aparece sua preocupação ecológica: “As políticas que regem a economia mundial submetem o homem a tensões por ele mesmo criadas, dilapidando num ritmo acelerado os recursos materiais e energéticos, comprometendo o ambiente geofísico. Tais estruturas ampliam incessantemente as zonas de miséria, e com isso, a angústia, a frustração e a amargura”[9]. A exploração da terra e do planeta para fins industriais e militares e a técnica não controlada, “trazem muitas vezes consigo a ameaça para o ambiente natural do homem, alienam-no nas suas relações com a natureza e o separam da mesma natureza”. Tal atitude é contrária à vontade do Criador que colocou o homem como ‘senhor’ e ‘guarda’, e não como ‘desfrutador’ e ‘destruidor’ (Redemptor hominis, n. 15).

Na Carta Apostólica Appropinquat iam synodus, preparando o VI Sínodo dos bispos, o Papa aponta, entre outros, alguns temas relacionados com o meio ambiente: “No plano material a questão ambiental levada avante, merece um novo estudo e impulso. O complexo problema energético pode muito bem ser visto neste contexto, de modo que os recursos energéticos mais eficazes e apropriados sejam disponibilizados sem um inútil desperdício no uso dos materiais”[10].

Na Carta Encíclica Sollicitudo Rei Socialis (30/12/1987) João Paulo II aborda em diferentes momentos a questão ecológica[11]: “Entre os sinais positivos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento, em vez de sacrificá-los a certas concessões demagógicas. É, afinal, aquilo que se chama hoje com o termo preocupação ecológica”. Mais adiante (n. 29) insiste no limite do domínio humano sobre a criação: “O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder absoluto, nem se pode falar de liberdade de ‘usar e abusar’, ou de dispor das coisas com bem lhe agrada. A limitação imposta pelo mesmo Criador, desde o princípio, é expressa simbolicamente com a proibição de ‘comer o fruto da árvore’ (cf. Gn 2,16-17)”... “Uma justa concepção do desenvolvimento não pode prescindir do respeito pelos seres que formam a natureza visível... Não se pode fazer, impunemente, uso das diversas categorias de seres, vivos ou inanimados – animais, plantas, elementos naturais – a bel prazer, segundo as próprias necessidades econômicas” (n. 34). O desenvolvimento deve ser condicionado às possibilidades de renovação dos recursos naturais. Deve basear-se “na constatação mais urgente das limitações dos recursos naturais, alguns dos quais não renováveis. Usá-los como se fossem inesgotáveis, com domínio absoluto, põe seriamente em perigo sua disponibilidade não só para a geração presente, mas, sobretudo, para as futuras gerações” (n. 34).

Na homilia pronunciada em Punta de Arenas[12], João Paulo II relaciona a paz entre os homens com a paz com a natureza: “Quero, enfim, referir-me à outra preocupação, em certo modo relacionada com a paz: a paz do homem com a natureza. Como sabeis, em não poucas regiões do mundo encontramo-nos ante perigos e ameaças à ecologia, que não só causam gravíssimos danos ao esplendor da natureza, mas também afetam gravemente o mesmo homem, ao tentar contra o seu equilíbrio vital e o seu futuro. Meu predecessor o Papa Paulo VI faz presente já esta preocupação ao dizer: ‘de um momento para o outro, o homem toma consciência dela: por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação’ (Octogesima Adveniens, 21). A Igreja não é contra o progresso científico e técnico: ‘a técnica é indubitavelmente uma aliada do homem. Ela facilita-lhe o trabalho, aperfeiçoa-o e o multiplica’ (Labore Exercens, 5). Mas o progresso técnico não deve assumir o caráter de domínio sobre o homem e de destruição da natureza. A técnica, no sentido querido por Deus, deve servir o homem, e o homem deve entrar em contato com a natureza como guarda inteligente e nobre, e não como explorador sem escrúpulo (cf. Redemptor Hominis, 15)”... “Hoje, queridos filhos, nos umbrais do V Centenário da evangelização da América, a Igreja pede-vos um particular empenho na obra de reconciliação e pacificação: com Deus, com o irmão, com a natureza inteira”.

Já em 1983, no Documento preparatório para a VI Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, o Papa relacionava a reconciliação entre os homens com a reconciliação com a natureza: “Em geral, não há reconciliação entre os homens sem uma reconciliação com toda a natureza. É certamente um sinal da vontade inicial do Criador: ‘À tua imagem formaste o homem, a suas mãos operosas confiaste o universo, para que na obediência a ti, seu Criador, exercesse o domínio sobre toda a criação’(IV Oração Eucarística). O exemplo de S. Francisco de Assis é válido ainda hoje”[13].

Na Exortação pós-sinodal Christi fideles laici (30/12/1988) o Papa lembra que os dons da natureza, recebidos pelo ser humano de Deus, devem ser cuidados, usados com respeito e amor e passados em melhores condições para as gerações futuras: “Certamente o homem recebeu do próprio Deus a tarefa de ‘dominar’ as coisas criadas e de ‘cultivar o jardim’ do mundo; mas esta é uma tarefa que o homem deve cumprir num respeito absoluto da imagem divina recebida e, portanto, com inteligência e amor. Deve sentir-se responsável pelos dons que Deus lhe concedeu e continuamente lhe concede. O homem tem em mãos um dom que deve passar – e, se possível, melhorado – às gerações futuras, também elas destinatárias dos dons do Criador”[14].

Em 1990, na sua mensagem para a 23ª jornada mundial pela paz[15] (1990) o Papa novamente relaciona a paz com Deus Criador e a paz com a criação: “Nota-se, hoje, a crescente consciência que a paz mundial está ameaçada, além da corrida armamentista, dos conflitos regionais e das injustiças ainda existentes nos povos e entre nações, também pela falta do devido respeito pela natureza, pela desordenada exploração dos recursos e a progressiva deterioração da qualidade de vida. Diante da generalizada degradação do ambiente, a humanidade se dá conta que não pode continuar a usar os bens da terra como no passado... Está se formando uma consciência ecológica, que deve ser incentivada, a fim de que se desenvolva e amadureça para encontrar expressões adequadas em programas e iniciativas concretas” (n. 1). Como fundamentação bíblica, o papa lembra que, depois de ter criado o homem e a mulher o texto diz: “E Deus viu tudo quanto havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1,31). Confiou ao homem e à mulher todo o resto da criação e “descansou de toda obra” (2,3). ‘O chamado de Adão e Eva a participar na concretização do plano de Deus sobre a criação estimulava as qualidades e os dons que distinguem a pessoa humana de todas as criaturas e, ao mesmo tempo, estabelecia uma relação ordenada entre o homem e toda a criação. Feitos à imagem e semelhança de Deus, Adão e Eva deveriam ter exercido seu domínio sobre a terra (cf. Gn 1,28) com sabedoria e amor. Mas eles, com seu pecado, destruíram a harmonia existente, pondo-se deliberadamente contra o desígnio do Criador. Isso trouxe não só a alienação do próprio homem, à morte e ao fratricídio, mas também a uma rebelião da terra em relação a ele (cf. Gn 3,17-19; 4,12). Toda a criação foi sujeita à caducidade e, desde então, de modo misterioso, espera ser libertada para entrar na liberdade gloriosa, junto com todos os filhos de Deus” (cf. Rm 8,20-21). Em seguida, o Papa fala da reconciliação feita pela ressurreição de Cristo (Cl 1,19-20), da renovação da criação antes submetida à escravidão (Ap 21,5; Rm 8,21), dos “novos céus e da nova terra” (2Pd 3,13) e da recapitulação de tudo em Cristo (Ef 1,9-10). Estas passagens bíblicas iluminam a relação entre o agir humano e a integridade da criação. Se o homem não está em paz com o Criador, toda a criação sofre (Os 4,3). Menciona também outras questões: a crise ecológica como problema moral, a busca de uma solução, a urgência de uma nova solidariedade e a responsabilidade de todos na questão ecológica. Por fim conclui: “São Francisco de Assis, que em 1979 proclamei patrono celeste dos ecólogos, oferece aos cristãos o exemplo do autêntico respeito pela integridade da criação. Amigo dos pobres, amado pelas criaturas de Deus, ele convidou a todos – animais, plantas, forças da natureza, inclusive o irmão sol e a irmã lua – a honrar e louvar o Senhor. Do Pobrezinho de Assis vem o testemunho que, estando em paz com Deus, podemos melhor dedicar-nos a construir a paz com toda a criação, que é inseparável da paz entre os povos” (n. 16).

Na Carta Encíclica Centesimus Annus (01/05/1991)[16], João Paulo II, depois de alertar para o fenômeno do consumismo, prejudicial à saúde física e espiritual, fala da degradação do ambiente natural: “O homem descobre a sua capacidade de transformar e, de certo modo, criar o mundo com o próprio trabalho, esquece que este se desenrola sempre sobre a base da doação originária das coisas por parte de Deus. Pensa que pode dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à sua vontade, como se ela não possuísse uma forma própria e um destino anterior que Deus lhe deu, e que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair. O homem, em vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da criação, substitui-se a Deus, e deste modo acaba provocando a revolta da natureza mais tiranizada que governada por ele”. O homem precisa também aprender a zelar pelo ambiente humano, isto é, pela ‘ecologia humana’ e ‘ecologia social’ do trabalho – diz o Papa. Sendo a família a primeira e fundamental estrutura a favor da ‘ecologia humana’, denuncia “campanhas sistemáticas contra a natalidade, baseadas numa concepção destorcida do problema demográfico e na falta de respeito às decisões dos pais.

Na Semana de estudos da Pontifícia Academia de Ciências (1992), dedicada ao estudo entre o acentuado crescimento demográfico, seu impacto no meio ambiente e a disponibilidade dos recursos naturais[17], João Paulo II lembra: “A Igreja, como ‘perita em humanidade’, promove o princípio da maternidade e da paternidade responsáveis, e considera seu dever principal chamar urgentemente a atenção para a moralidade dos métodos aplicados. O respeito pela pessoa e pelos direitos inalienáveis da pessoa deve existir sempre. O incremento ou a forçada diminuição da população são em parte causados pela carência de instituições sociais; os danos provocados no meio ambiente e a aumentada escassez de recursos naturais derivam, com frequência, dos erros humanos” (n. 4-5). A preservação da natureza não se consegue simplesmente diminuindo a população e, sim, corrigindo os erros. É preciso agir no âmbito da educação e coibir a destruição do meio ambiente, causada pela indústria e pelos produtos industriais (n. 8). Se não mudarmos nosso estilo de vida consumista será difícil melhorar o meio ambiente: “O dinamismo do crescimento demográfico (n. 9), a complexidade da descoberta e da distribuição dos recursos, bem como as suas recíprocas conexões e consequências para o meio ambiente, constituem um desafio prolongado e exigente. Só mediante um novo e rigoroso estilo de vida, que vem do respeito pela dignidade da pessoa, é que a humanidade será capaz de enfrentar este desafio de maneira adequada” (cf. Dignitatis humanae, 3).

Numa carta ao Secretário Geral da Conferência Internacional sobre população e desenvolvimento (1994), o Papa retorna à questão demográfica, relacionando-a com o meio ambiente[18]: “O desenvolvimento – diz ele – apresenta inevitavelmente a questão das implicações ambientais do crescimento demográfico. A questão ecológica, no seu próprio fundamento, é também moral. Enquanto o crescimento demográfico é, com frequência, considerado responsável por problemas ambientais, estamos conscientes de que a questão é bem mais complexa. Os padrões de consumo e desperdício, de modo particular nos países desenvolvidos, a destruição dos recursos naturais, a ausência de restrições ou de salvaguardas nalguns processos industriais ou de produção em geral, tudo isto põe em perigo o meio ambiente natural” (n. 9). É o modelo econômico baseado na produção e no consumo, que determina a qualidade do ambiente. Políticas errôneas é que causam a degradação do ambiente. Por isso, as nações desenvolvidas devem rever seus padrões de consumo em respeito aos contemporâneos e às gerações futuras. Em seu desenvolvimento elas devem buscar tecnologias menos poluidoras.

Conexa com a questão demográfica e a degradação do ambiente está o problema endêmico da fome no mundo. Esta questão é abordada duas vezes pelo Pontifício Conselho Cor Unum. Em 1988 o documento cita alguns fatores ecológicos causadores da fome[19]: a destruição dos recursos naturais e das florestas, catástrofes naturais, o abuso de fertilizantes químicos e pesticidas, o lixo radioativo, etc.

Em 1996 aborda o problema da fome dentro da cadeia de iteração de ecossistemas, que interagem positiva e negativamente uns sobre os outros[20]: “Na própria cadeia da produção alimentar, todos os homens percebem-se como elementos ativos e passivos de um ecossistema. Um novo campo de responsabilidade se abre às consciências. Não se pode querer simultaneamente nutrir um número maior de pessoas e enfraquecer a agricultura. Todavia, a agricultura torna-se tanto mais poluidora (com recurso máximo a insumos, pesticidas e maquinários), quanto mais difusa se torna a industrialização... Ao lado de outros elementos necessários à vida, ar e água, terrenos e florestas são ameaçados de poluição pelo consumo excessivo, pela desertificação provocada pelo homem e pelo desmatamento. Em cinquenta anos, metade das florestas tropicais foram arrasadas, muitas vezes para conseguir terras, o por políticas cegas de exploração acelerada, voltadas ao re-equilíbrio do ônus da dívida. Nas regiões mais pobres, a desertificação é provocada por práticas de sobrevivência que aumentam a pobreza; pastoreio excessivo, corte de árvores e arbustos para cozer alimentos ou para calefação” (n. 30). No mesmo contexto o Papa aborda a necessidade de uma administração ecologicamente sadia do planeta. Esta administração deverá integrar nos custos econômicos o impacto ambiental, compreendendo melhor os nexos entre ecologia e atividade econômica, para que o desenvolvimento seja duradouro e equitativo, evitando novas distorções além das atuais (n. 31)

Na Evangelium Vitae (23/03/1995) João Paulo II faz um apelo: “O homem é convidado a uma verdadeira conversão a fim de reconhecer a beleza da criação e preservar ‘o bem comum’ de toda a humanidade. Ele é convidado a libertar-se da escravidão do consumo e da corrida para ter ‘sempre mais’. Deve reencontrar o sentido da gratuidade e mudar o próprio modo de ver, a fim de aprender a considerar a criação como dom de Deus, como único criador”.

Na Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) o Papa insiste no respeito pelo ambiente e a salvaguarda da criação[21] e, num tom dramático, reinterpreta o famoso texto de Rm 8,22: “O ‘gemido das criaturas’, a que alude o Apóstolo (cf. Rm 8,22), hoje parece verificar-se numa perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”. E conclama os bispos a assumirem na pregação a tarefa de uma conversão ecológica: “Há necessidade, pois, de uma conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a natureza. À luz da doutrina sobre Deus-Pai, criador do céu e da terra, vê-se que se trata duma relação ‘ministerial’: o homem está efetivamente colocado no centro da criação, como ministro do Criador (n. 70).

O Papa Bento XVI em vários pronunciamentos já manifestou a preocupação da Igreja Católica com a ecologia. Destacamos a Encílica Caritas in Veritate (07/07/2009)[22]. Nesta encíclica, ao tratar do desenvolvimento dos povos, seus direitos e deveres, o Papa lembra que este tema está hoje intimamente ligado à relação do homem com o ambiente natural (n. 48). Não podemos ver a natureza simplesmente como fruto de uma evolução determinista. Para o crente a evolução é um resultado maravilhoso da intervenção criativa de Deus. “A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. Ela nos precede e nos é dada como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1,20) e de seu amor pela humanidade. É destinada a ser ‘recapitulada’ em Cristo no fim dos tempos (cf. Ef 1,9-10; Cl 1,19-20)... Está à nossa disposição... como um dom do Criador, que lhe designou os ordenamentos intrínsecos, para que o homem deles tire as orientações do dever de ‘guardá-la e cultivá-la’ (Gn 2,13)”. Com sua cultura e tecnologia o homem não pode violentar a natureza, mas deve respeitá-la como obra admirável do Criador, obra que tem dentro de si uma ‘gramática’ interna, que indica sua finalidade e os critérios de um uso sábio. O desenvolvimento humano não pode ignorar sua responsabilidade com a própria geração e as gerações sucessivas.

Na encíclica o Papa lembra também que os países ricos são responsáveis pelos países pobres na questão energética, na busca de energias renováveis e no desenvolvimento de novas formas de energia (n. 49). “Ao homem é lícito exercer um governo responsável sobre a natureza para guardá-la, colocá-la em seu proveito e cultivá-la também com novas formas e com tecnologias avançadas de modo que ela possa dignamente acolher e nutrir a população que a habita”. Mas nessa ação não se pode esquecer o “objetivo de reforçar a aliança entre o ser humano e o ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, do qual viemos e para o qual caminhamos” (n. 50). Dado que “o modo como o homem trata o ambiente influi sobre o modo como trata a si mesmo, e vice-versa” é preciso fazer uma revisão séria do estilo de vida moderno, inclinado ao hedonismo e consumismo e indiferente aos danos que disso provém. Um novo estilo de vida pede que as escolhas de consumo, poupança e investimentos se orientem pela busca do que é verdadeiro, belo e bom, em comunhão com os outras seres humanos (n. 51). “A Igreja tem uma responsabilidade pela criação”. Deve defender não só a terra, a água e o ar como dons da criação que a todos pertencem. “Deve proteger, sobretudo, o homem contra a destruição de si mesmo”, porque “quando a ‘ecologia humana’ é respeitada dentro da sociedade, também a ecologia ambiental é favorecida” (n. 51).

Outros pronunciamentos do Vaticano

Durante a 21ª Congregação geral do Sínodo dos bispos (1971), o Presidente deu a palavra a Bárbara Ward, membro da Comissão “Justiça e Paz” e assistente do Secretário para o tema da justiça no mundo, que fez a seguinte intervenção: “O problema da utilização dos recursos naturais é parte de outro problema mais amplo. Muito consumo significa muito desperdício. Com demasiada frequência, os restos das economias de alto nível de consumo contaminam não só as águas e o ar dos mesmos países ricos, mas se espalham pelos oceanos e, segundo parece, já estão causando um aumento de temperatura de todo o planeta. Se são estas as consequências do alto nível de vida de somente uma quarta parte da humanidade, o que poderia chegar a acontecer a nosso velho planeta se as outras três partes alcançarem os mesmos níveis econômicos? Não podemos isolar nossas atividades econômicas dos ares, oceanos e águas de que depende, em última instância, toda a vida do planeta. Chegamos a um ponto em que o risco de uma contaminação excessiva da biosfera se converte em realidade”[23]. O alerta é levantado no contexto da distribuição das riquezas.

O Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, no documento A importância da publicidade, fala sobre a “Ética na publicidade” (22/02/1997), que repercute no problema ecológico: “A publicidade que promove um estilo de vida desregrado, a custo do desperdício dos recursos e do saque do ambiente, causa graves danos à ecologia”. Cita João Paulo II, Centesimus annus, n. 37: “O homem, tomado pelo desejo de possuir e de gozar, mais do que de ser e de crescer, consome de modo excessivo e desordenado os recursos da terra e a sua própria vida. Ele pensa poder dispor arbitrariamente da terra, submetendo-a sem reservas à própria vontade, como se ela não tivesse uma forma própria e uma destinação anterior que lhe foi dada por Deus, que o homem pode, sim, desenvolver, mas não deve trair”... “Os publicitários, bem como os profissionais empenhados em outras formas de comunicação social, têm o dever primário de exprimir e promover uma visão autêntica do desenvolvimento humano nas suas dimensões materiais, culturais e espirituais. A comunicação que responde a este princípio se revela, entre outras coisas, como verdadeira expressão de solidariedade”.

O Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, ao se pronunciar sobre a reforma agrária (23/11/1997), aponta a má distribuição das terras como uma das causas da degradação ambiental: “As desigualdades na distribuição da propriedade da terra incluem, por fim, um processo de degradação ambiental dificilmente reversível, para o qual concorrem a degradação do solo, a redução de sua fertilidade, a grande exposição ao perigo de aluviões, ao rebaixamento do nível freático, o assoreamento de rios e lagos, e outros problemas ecológicos. Frequentemente incentivado, com incentivos fiscais e crediários, o desmatamento de grandes áreas para dar lugar a formas de criação extensiva e à atividade minerária ou à industrialização de matéria lenhosa, mas sem prever planos de recomposição ambiental ou, quando existem, não são executados. Também a pobreza se alia à degradação ambiental, num círculo vicioso, quando os pequenos agricultores, expropriados pelas grandes propriedades e os pobres sem terra são obrigados, na busca de novas terras a ocupar aquelas já degradadas, como as terras de encostas, destruindo o patrimônio florestal para exercer a agricultura”. Neste contexto lembra a mensagem bíblica sobre o cuidado da terra, tarefa que o ser humano recebeu do Criador segundo Gn 1,26-28: “A primeira tarefa que Deus lhe dá – evidentemente, uma tarefa fundamental – diz respeito à atitude que devem assumir de fronte à terra e a todas as criaturas. ‘Subjugar’ e ‘dominar’ são dois verbos que podem ser facilmente mal interpretados e até parecer uma justificação daquele domínio despótico e desenfreado que não se preocupa com a terra nem de seus irmãos, mas apenas da própria vantagem. Na realidade ‘subjugar’ e ‘dominar’ são verbos que, na linguagem bíblica, servem para descrever o domínio do rei sábio, que cuida do bem-estar de todos os seus súditos... O homem é posto no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (cf. Gn 2,15), para poder assim nutrir-se dos seus frutos”[24].

O Cardeal Rodriguez Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, no discurso aos embaixadores europeus (06/05/2009), ao falar do tema “A economia global no caminho de Damasco”, faz um apelo por mudanças profundas neste campo. Pede uma colaboração mais eficiente no desenvolvimento dos países mais pobres. Lembra que os países mais pobres são os mais atingidos pelos efeitos da mudança climática em andamento: “Não temos mais tempo a perder. Deve-se encontrar um acordo radical e factível na conferência da ONU, em dezembro, em Copenhagen, baseada na justiça climática e no princípio ‘quem polui paga’. Exortamo-vos a produzir um acordo global sobre o clima, um acordo que seja forte, vinculante e justo, de modo a assegurar a sobrevivência e o bem-estar de todos os filhos de Deus. Segundo um princípio de equidade e responsabilidade, aqueles que criaram o problema também devem pagar pela solução...”[25].

Pronunciamentos e documentos da Igreja no Brasil

No Brasil, o tema da ecologia tem sido tratado, de modo especial, em algumas Campanhas daFraternidade (CF), que abaixo vamos expor brevemente.

 

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Campanha da Fraternidade de 1979

O tema da CF de 1979 era “Por um mundo mais humano” e o lema “Preserve o que é de todos”. Como textos para a reflexão bíblica são citados, entre outros Gn 1–2 (relato da criação), Gn 3,17-18 (a natureza e o pecado do homem), Sl 8 (o homem administrador da criação), Sl 23,1-2 (Deus, o Senhor da natureza), Sl 103 (poema da criação), Eclo 39,12-35 (hino ao Criador), Eclo 42,22–43,26 (as obras do criador), Is 24,5-6 (pecado do homem e maldição da terra), Is 58,18 (beleza e equilíbrio da criação), Is 65,17-25 (nova criação), Dn 3,51-90 (cântico dos 3 jovens), Rm 8,19-23 (o desejo da natureza), 2Pd 3,7-13 (novos céus e nova terra), Ap 21–22 (o novo céu a nova terra).

Na secção ver, justifica-se a escolha do tema para a CF, pois “a ecologia é um tema profundamente fraterno” e “a natureza criada por Deus é destinada a todos os homens. Destruí-la e prejudicá-la é, portanto, um ato nocivo ao próximo”. O texto lembra que nos últimos séculos o homem passou de dominado pelas forças da natureza a dominador. Mas este domínio, pela industrialização e tecnologias transformou-se em risco de destruição da natureza: destruição de florestas, provocando aluviões, enchentes e secas, ameaçando a própria espécie humana. A preocupação da Igreja acompanha a dos cientistas, que enumeram cinco fontes causadoras da degradação ambiental: o crescimento da população, a utilização de recursos naturais, a produção de alimentos, a produção industrial e a poluição. A poluição da miséria está relacionada à fome, à carência de saneamento básico, à falta de moradia, às favelas. A poluição da riqueza está ligada ao mundo industrializado, à devastação das florestas, ao uso do petróleo como combustível e para a locomoção, à especulação imobiliária, à espoliação dos recursos da natureza e à exploração injusta dos pobres. Outros fatos alarmantes: escassez de água potável, desmatamento, extinção de animais, a crescente urbanização, o dióxido de carbono produzido pelos combustíveis fósseis, os detritos e o lixo nuclear.

Na secção julgar, como de praxe à luz da Bíblia, são lembradas as “verdades bíblicas e teológicas”, como a vocação da natureza ao equilíbrio (cf. Gn 3,27; Rm 8,21; Ap 21,22; Ef 1,20; Cl 4,20), a destinação universal da natureza[26] e a responsabilidade do homem como administrador da natureza. Os textos bíblicos citados são: Gn 1,26-31; 2,15.19; Sl 8,5-8; Mt 21,33-44; Lc 16,1-9; Mt 25,14-30. Lembram-se também as palavras de Paulo VI na sua mensagem ao 5º Dia Mundial do Ambiente (05/06/1977), na qual o Papa proclama os homens como ‘guardas da criação de Deus’, mas sem ‘um domínio despótico sobre o ambiente humano’, de modo que o crescimento material seja acompanhado da prudente moderação no uso dos alimentos terrestres e de uma verdadeira pobreza de espírito. Governar a natureza não significa destruí-la, mas aperfeiçoá-la, para que o mundo não se torne um caos inabitável, mas uma bonita casa, na qual todas as coisas sejam respeitadas.

Na secção agir o texto lembra: a superação do egoísmo, do consumismo e da ganância de possuir, o respeito à natureza, a exemplo de São Francisco de Assis, padroeiro da Ecologia. Propõe também que noções de ecologia sejam introduzidas nas escolas, na catequese, nos meios de comunicação, nas comunidades eclesiais, na pregação e nas celebrações. Outros conselhos: plantar flores, cuidar da atmosfera, evitar derrubada desnecessária de árvores, fazer o reflorestamento, evitar a caça aos animais, cuidar da água e do lixo[27]

 

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3.2. Campanha da Fraternidade 1984

O tema da Campanha era “Deus, fonte de vida” e o lema, “Para que todos tenham vida”. Nos n. 25-26 aborda brevemente a problemática ecológica, alertando que o futuro da vida na Terra corre perigo. Indícios deste perigo são a destruição das florestas, o envenenamento da terra dos alimentos e das águas pelo uso de inseticidas, a Amazônia ameaçada, etc. Reforça o que já foi tratado na CF de 1979. Na reflexão bíblica explicita o tema “Deus, fonte de vida”: Deus como princípio absoluto da vida (Ap 1,17-18; Gn 2,7; 1,27-31; Gn 3,16-19); Deus quer a vida e não a morte (Ez 18,32; Sb 1,12; Dt 30,19-20); Deus é o defensor da vida (Ex 3,7-8).

3.3. Campanha da Fraternidade 2004

O tema era “Fraternidade e água” e o lema, “Água, fonte de vida”. Foi talvez uma das Campanhas da Fraternidade que teve maior impacto na população, sobretudo católica. Apesar da abundância de água doce no Brasil, estamos sentindo a sua importância para a nossa vida e a vida dos seres vivos como um todo. É evidente a degradação das águas no Brasil, em razão da poluição por dejetos urbanos, inseticidas, pesticidas, lixo industrial. A água está se tornando objeto de desperdício e de ganância.

O objetivo geral da CF-2004 é assim especificado: “Conscientizar a sociedade de que a água é fonte de vida, uma necessidade de todos os seres vivos e um direito da pessoa humana, e mobilizá-la para que esse direito à água com qualidade, seja efetivado para as gerações presentes e futuras”. Vale a pena também citar alguns dos objetivos específicos visados: desenvolver uma mística ecológica e resgatar o valor da água nos seus fundamentos mais profundos; apoiar e valorizar as iniciativas já existentes no tocante ao cuidado da água; provocar e alimentar a solidariedade entre os que têm e os que não têm água e defender a participação popular na elaboração de uma política hídrica, para que a água seja, de fato, de domínio público. Estes objetivos específicos, se concretizados, significarão um grande benefício e avanço no cuidado deste dom de vida que é a água.

Na secção ver é analisada a crise da água, com bastante amplidão e informações técnicas. Na secção julgar procura-se recuperar as tradições religiosas locais, as perspectivas bíblicas (ilustradas com inúmeros textos) e teológicas, aprofundando as exigências éticas. Na secção agir indicam-se dezenas de possibilidades de ação, do ponto de vista religioso, celebrativo, educacional e social, ações que podem levar a uma conscientização sobre o valor da água e a necessidade do cuidado em preservarmos este bem comum.

 

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3.4. Campanha da Fraternidade 2007

O tema proposto foi Fraternidade e Amazônia e o lema “Vida e missão neste chão”[28]. Esta Campanha visa preservar a riquíssima “sociobiodiversidade” contra todas as formas de devastação, movidas pela avidez do lucro. De fato, é consenso generalizado que “a Amazônia constitui-se num fator de equilíbrio essencial para todo o planeta e que a vida da região tem a ver com a qualidade de vida global da Terra”. O objetivo geral da CF-2007 é assim delineado: “Conhecer a realidade em que vivem os povos da Amazônia, sua cultura, seus valores e as agressões que sofrem por causa do atual modelo econômico e cultural, e lançar um chamado à conversão, à solidariedade, a um novo estivo de vida e a um projeto de desenvolvimento à luz dos valores humanos e evangélicos, seguindo a prática de Jesus no cuidado com a vida humana, especialmente a dos mais pobres, e com toda a natureza”. Para se alcançar este objetivo geral são propostas sete ações práticas (objetivos específicos) capazes de preservar a biodiversidade deste patrimônio da humanidade, que é a Amazônia, defendendo e defendendo a riqueza cultural e o bem-estar das populações que ali vivem.

Medellín, Puebla e Santo Domingo

Medellín (1968)

Medellín significou para a América Latina (AL) a recepção do Concílio Vaticano II, como o diz o tema da Conferência “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”[29]. Ao tratar da promoção humana e da justiça (n. 1.3), o Documento dá a seguinte fundamentação doutrinária: “O mesmo Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, criou a terra e tudo o que nela existe, para uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens criados possam bastar a todos de maneira mais justa (GS 69), e dá poder ao homem para que solidariamente transforme e aperfeiçoe o mundo” (Gn 1,29). Como se vê, falta ainda a percepção de que Deus deixou os bens da Terra para todos os seres vivos e não apenas para todos os seres humanos.

Puebla (1979)

Puebla pode ser considerada a recepção das linhas básicas da evangelização na AL delineadas em Medellín. De fato, já não se faz a ligação com o Vaticano II, mas com o nosso contexto, como se vê no título “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”. O documento dos Bispos latino-americanos aborda várias vezes a questão da ecologia:

- n. 139: “Se não mudarem as tendências atuais continuará a deteriorar-se a relação do homem com a natureza pela exploração irracional de seus recursos e a contaminação do ambiente, com o aumento de graves prejuízos para o homem e para o equilíbrio ecológico”.

- n. 327: Pede que “o domínio, o uso e a transformação dos bens da terra, da cultura, da ciência e da técnica” se realizem “em um justo e fraterno domínio do homem sobre o mundo, tendo-se em conta o respeito da ecologia”.

- n. 386: Pede o cultivo da relação com a natureza (cf. GS, 53).

- n. 496: Denuncia os efeitos desastrosos da industrialização, da urbanização e o consumismo alarmantes: “Importa tomar consciência dos efeitos devastadores da industrialização descontrolada e da urbanização que vai tomando proporções alarmantes. O esgotamento dos recursos naturais e a contaminação do ambiente constituirão problema dramático. Afirmamos uma vez mais a necessidade de uma profunda revisão da tendência consumista das nações mais desenvolvidas; cumpre levar em consideração as necessidades elementares dos povos pobres que formam a maior parte do mundo”.

- n. 1236: Entre os objetivos, opções e estratégias Puebla aponta o seguinte princípio orientador: “Preservar os recursos naturais criados por Deus para todos os homens, a fim de transmiti-los como herança às gerações vindouras”.

 

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Santo Domingo – 1992

O tema da Conferência foi a “Nova evangelização, promoção humana e cultura cristã”[30]. Este documento não seguiu o método tradicional ver, julgar e agir[31]. Mesmo assim, entre os desafios que a Igreja na América Latina e Caribe deve enfrentar citam-se:

a defesa da vida diante da presença destruidora de uma cultura de morte;

a ecologia: a natureza como dom de Deus que temos que cuidar e desenvolver com critérios éticos, com proposta de desenvolvimento sustentável;

a terra, considerada como dom de Deus e lugar sagrado, sobretudo para os indígenas, que deve ser distribuída com justiça, favorecendo os excluídos.

O n. 169 sublinha o motivo da sacralidade da natureza: “A criação é obra da Palavra do Senhor e da presença do Espírito, que desde o início, pairava sobre tudo o que foi criado (Gn 1-2). Essa foi a primeira aliança de Deus conosco (grifo nosso). Quando o ser humano, chamado a entrar nesta aliança de amor, se nega, o pecado do homem afeta sua relação com Deus e com toda a criação”.

Como desafios, Santo Domingo cita a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, celebrada no Rio de Janeiro, que pôs em relevo mundial a gravidade da crise ecológica. Cita o problema das grandes cidades, a perda das terras por parte de populações indígenas, o desmatamento e as queimadas, sobretudo, na Amazônia. Para enfrentar estes problemas propõe-se o desenvolvimento sustentado, para atender as necessidades presentes sem comprometê-las no futuro. A quem atenderá este desenvolvimento? Não pode ser feito em detrimento das maiorias empobrecidas do mundo. É necessário adotar critérios éticos, uma ética ecológica que abandone o utilitarismo e individualismo, que frise o destino universal dos bens da criação, a promoção da justiça e da solidariedade.

Aponta também algumas linhas pastorais para os cristãos:

Começando com as crianças e os jovens, promover uma “reeducação de todos diante do valor da vida e da interdependência dos diversos ecossistemas”.

Cultivar uma espiritualidade que recupere o sentido da presença de Deus na criação, explicitando a nova relação estabelecida pelo mistério da encarnação, pela qual Cristo assumiu tudo o que foi criado.

Valorizar a nova plataforma de diálogo que a crise ecológica criou (grifo nosso), e questionar a riqueza e o desperdício.

Aprender com os pobres a viver com sobriedade e com a sabedoria dos indígenas para preservar a natureza como ambiente de vida para todos.

Aprofundar a mensagem do santo Padre por ocasião da jornada mundial da paz, aprendendo o que seja “ecologia humana”. São Francisco, no seu amor aos pobres e à natureza, pode inspirar o caminho de reconciliação com a criação e com todos os homens, caminho de justiça e de paz.

O Documento aborda no n. 171 o tema da terra como dom de Deus: “‘Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes’(Sl 24,1) é afirmação de fé que percorre toda a Bíblia e confirma a crença de nossos povos de que a terra é o primeiro sinal da Aliança de Deus com o homem. De fato, a revelação bíblica nos ensina que, quando Deus criou o homem, o colocou no jardim do Éden para que o cultivasse e o cuidasse (Gn 2,15) e dele fizesse uso (Gn 2,16), indicando-lhe ‘alguns limites’ (Gn 2,17) que recordariam sempre ao homem que ‘Deus é o Senhor e criador, e dele é a terra e tudo que nela existe’ e que ele a pode usar não como dono absoluto, mas como administrador”. Neste sentido o texto lembra o respeito que as culturas indígenas têm pela terra.

Ao tratar do diálogo com as religiões não-cristãs (n. 138), como linha pastoral, propõe: “Promover ações em favor da paz, da promoção e defesa da dignidade humana, bem como a cooperação em defesa da criação e do equilíbrio ecológico, como forma de encontro com outras religiões”.

V CELAM – Aparecida

A questão ecológica é tratada em diferentes momentos e sob diversos ângulos no Documento de Aparecida[32].

Ao tratar da situação econômica, propõe um desenvolvimento global e solidário que não se sobreponha às outras dimensões humanas, mas que esteja a serviço da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus (Discurso inaugural de Bento XVI) nem se coloque acima da preservação da natureza: “Com muita frequência se subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. As possibilidades e eventuais problemas da produção de agro-combustíveis devem ser estudadas, de tal maneira que prevaleça o valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência. A América Latina possui os aquíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de território selvagem, que são pulmões da humanidade. Assim se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que não são reconhecidos economicamente (grifo nosso). O estilo de vida dos países desenvolvidos seria o principal causador do aquecimento global” (n. 66).

No dicionário dos bispos em Aparecida entrou também a expressão “desenvolvimento sustentável”. Assim, ao tratar do destino universal dos bens e da ecologia, pede-se o respeito para com a ‘nossa irmã e mãe terra’ (Francisco de Assis, Cântico das Criaturas 9), que “é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação[33]. Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida” (n. 125). O desenvolvimento deve visar o bem da pessoa humana: “A melhor maneira de respeitar a natureza é promover uma ecologia humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e a família, os ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de recapitular as coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1Cor 3,21-23)”.

Deus entregou o mundo para todos, para as gerações presentes e futuras. Por isso o Documento frisa o destino universal dos bens. Como os recursos naturais são limitados devemos ser solidários com as gerações presentes e futuras, respeitando sempre o desenvolvimento sustentável (n. 126).

A ecologia e a proteção da natureza são vistas como um dos novos areópagos da evangelização (n. 491). “Devemos promover a geração de uma ‘cultura da paz’, que seja fruto de um desenvolvimento sustentável, equitativo e respeitoso da criação” (n. 542).

Na sua pastoral social, a Igreja deve “elaborar ações concretas que tenham incidência nos Estados para a aprovação de políticas sociais e econômicas que atendam às várias necessidades da população e que conduzam para um desenvolvimento sustentável” (n. 403). “São muito importantes os espaços de participação da sociedade civil para a vigência da democracia, uma verdadeira economia solidária e um desenvolvimento integral, solidário e sustentável” (n. 406a). No afã de um desenvolvimento necessário para os povos da AL é preciso evitar a devastação das florestas e a contaminação da água (n. 473).

A ecologia é também abordada quando o documento fala da biodiversidade, uma das riquezas da América Latina, especialmente a Amazônia e a Antártida (n. 83-97). Ela está associada à riqueza das culturas, com seus conhecimentos de medicina natural, muitas vezes ilicitamente apropriados e patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética (n. 83). Decide-se sobre a riqueza da biodiversidade e da natureza sem consulta às nações tradicionais; a terra é maltratada, a água é considerada uma mercadoria a ser disputada pelas grandes potências. Neste contexto lembra-se o discurso de Bento XVI aos jovens no Pacaembu, no qual denuncia a devastação ambiental da Amazônia, o desrespeito à dignidade de seus povos e convoca os jovens a um maior compromisso (n. 84-85). A agressão ao meio-ambiente pode se tornar um pretexto de internacionalização da Amazônia, com inconfessáveis interesses de grupos internacionais (n. 86). O aquecimento global já se faz sentir pelo retrocesso de geleiras, pelo degelo do Ártico.

Os bispos estão preocupados não apenas em preservar o ambiente, mas convocam todos “a dar graças pelo dom da criação, reflexo da sabedoria e beleza do Logos criador”, lembrando que o Deus da vida confiou ao ser humano sua obra criadora para que ‘a cultivasse e a guardasse’ (Gn 2,15). Jesus nos ensina a observar como o Pai alimenta e embeleza as criaturas e nos convida a reconhecer a mensagem escondida nas coisas (cf. Lc 12,24-27; Jo 4,35). Devemos aprender das populações indígenas o seu respeito pela natureza e pelo amor à mãe terra, tão dilapidada pelo atual modelo econômico (n. 470-473).

Diante da situação desastrosa do meio ambiente, no n. 474, os bispos fazem algumas propostas e orientações:

“Evangelizar nossos povos para que descubram o dom da criação, sabendo contemplá-la e cuidar dela, como a casa de todos os seres vivos e matriz da vida no planeta, a fim de exercitarem responsavelmente o senhorio humano sobre a terra e sobre os recursos, para que possam render todos os seus frutos com destinação universal, educando para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidárias”.

“Aprofundar a presença pastoral nas populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório, e apoiá-las em seus esforços, para conseguir equitativa distribuição da terra, da água e dos espaços urbanos”.

“Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo, integral e solidário, baseado em uma ética que inclua a responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamenta no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens”.

“Empenhar nossos esforços na promulgação de políticas públicas e participações cidadãs, que garantam a proteção, conservação e restauração da natureza”.

“Determinar medidas de monitoramento e controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais internacionais nos países”.

Por fim, para conscientizar sobre a importância da Amazônia, os bispos propõem uma “pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas, para criar um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva para o bem comum” (n. 475).

 

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Conclusão

Deste exame superficial que fizemos, perpassando os principais documentos ou pronunciamentos da Igreja referentes à questão ecológica, podemos tirar algumas conclusões:

1. A Igreja caminha junto com a sociedade, acompanhando a problemática da ecologia;

2. Há belos ensinamentos no magistério de Paulo VI e de João Paulo II, e, ultimamente, também de Bento XVI, sobre a questão ecológica;

3. uso de textos bíblicos relacionados com a ecologia (criação) é bastante abundante nos documentos da Igreja, mas falha no Documento de Aparecida. Esta deficiência no uso de textos bíblicos talvez se explique pelo próprio tema escolhido (Discípulos e missionários), centrado mais em Cristo, na redenção e missão. O Pai Criador ficou meio esquecido. Com isso, o tratado da Criação ficou em segundo lugar e o cuidado da criação não foi bem colocado dentro da missão evangelizadora. Assim se explicam as poucas citações bíblicas relacionadas com a criação, consequentemente, com a ecologia.

4. Merece destaque, porém, no DA a importância que se dá ao aspecto celebrativo da criação, vista como um dom de Deus, precioso e sagrado.

5. Reforçando o aspecto celebrativo da criação, a meu ver, deveríamos incluir mais o tema da criação e da ecologia em nossas pregações. Por que não valorizar, por exemplo, a unção pós-batismal – embora facultativa – com o óleo da Crisma? Como cristãos, somos ‘sacerdotes, profetas e reis da criação’.

6. Nas Campanhas da Fraternidade, muito importante do ponto de vista da ecologia é a CF de 1979. A de 1984, um pouco menos. A de 2004 foi boa pelo impacto pastoral prático causado.

7. Quanto ao aspecto da ecologia, destacam-se mais os Documentos de Puebla e de Santo Domingo. O Documento de Aparecida, embora valorize o aspecto celebrativo da criação, poderia ser mais incisivo em alguns posicionamentos, dada a gravidade da situação ambiental em que vivemos.

8. Chama a atenção a reinterpretação dada pela Exortação Apostólica pós-sinodal (2003) sobre Rm 8,22: O gemido das criaturas hoje parece verificar-se numa “perspectiva invertida, porque se trata não já duma tensão escatológica na expectativa da revelação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), mas dum espasmo de morte que tende a agarrar o próprio homem para destruí-lo”.

9. Desafios:

a. Como foram implementadas as belas propostas práticas de Puebla e de Santo Domingo? O que faremos com as propostas de Aparecida?

b. Tarefa urgente: cuidar do planeta terra para que as gerações futuras o tenham em condições melhores do que as atuais.

c. Desenvolvimento sustentável

d. Ser solidário e parcimonioso no uso dos bens. Ser mais “franciscano”...

e. A conversão ecológica: respeitar a natureza como dom de Deus, cuidar, economizar, poupar, reciclar.

Apêndice:

Como subsídios para conhecer a trabalho de orientação que outras conferências episcopais estão dando a seus fiéis sobre a questão ambiental, citamos alguns pronunciamentos de algumas conferências episcopais:

- Declaração final do Congresso sobre Ciência e Fé da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, “O amor pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 15, 1993, p. 484-486.

- Documento da comissão social do Episcopado francês, “O respeito pela criação”, Il Regno-Documenti, n. 7, 2000, p. 239-244.

- Conferência do Mons. Josef Homeyer, presidente da Comissão episcopal da Comunidade européia, sobre “As Igrejas na política ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2000, p. 513-519.

- Documento, envolvendo a questão da água, dos bispos dos USA e Canadá da bacia do rio Columbia, sobre o “Respeito pela criação e o bem comum”, Il Regno-Documenti, n. 15, 2001, p. 498-507.

- Documento da Assembléia Geral dos Bispos dos USA sobre as mudanças climáticas globais, “Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence, and the Common Good” (2001), catholicclimatecovenant.org/resources/global-cimate-change.

-Declaração dos Bispos da Austrália sobre a justiça social (2002), envolvendo a preocupação ambiental, “Uma nova terra: o desafio ambiental”, Il Regno-Documenti, n. 1, 2003, p. 35-41.

- Documento preparado pelo grupo de trabalho da Conferência Episcopal Alemã sobre “A mudança climática”, Il Regno-Documenti, n. 9, 2007, p. 293-312.


[1] A versão original deste texto, que agora sofreu pequenas atualizações, foi apresentada na 8ª Semana Teológico-Pastoral, promovida pela PUC-Rio, pelo Instituto de Filosofia e Teologia Paulo VI (IFITEPS – Nova Iguaçu) e pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF – Petrópolis), de 24 a 26 de outubro de 2007, na sede da PUC-Rio.

[2] Veja alguns documentos importantes de outras Conferências Episcopais citados no apêndice final.

[3] PAULO VI. O desenvolvimento dos povos. Carta Encíclica Populorum progressio. Documentos Pontifícios, n. 165. Petrópolis: Ed. Vozes, 15ª edição, 1991, n. 17, p. 11.

[4] Mensagem enviada pelo Papa Paulo VI ao Secretário Geral da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972 (cf. SEDOC, agosto de 1972, col. 159-162).

[5] Cf. SEDOC, fevereiro de 1971, col. 930.

[6] Cf. SEDOC, junho de 1971, col. 1444-1465.

[7] Cf. SEDOC, outubro de 1974, col. 328-329.

[8] Cf. SEDOC, Janeiro de 1975, col. 766.

[9] Enchiridion Vaticanum. Documenti ufficiali della Santa Sede, vol. 6. Bologna: CED, 1980, p. 1223.

[10] Enchiridion Vaticanum, vol. 7, 1981, n. 552, p. 523-524.

[11] Solicitude Social. Carta Encíclica de João Paulo II Sollicitudo rei socialis. São Paulo: Ed. Paulinas,1988, n. 26, p. 45. Coleção Voz do Papa, n. 117.

[12] Artífices da paz que é fruto de justiça (04/04/1987), SEDOC, v. 20, julho de 1987, p. 30-31.

[13] Instrumentum laboris. “La riconciliazione e la penitenza nella missione della Chiesa” (25/01/1983). Cf. Enchiridion Vaticanum, v. 8, p. 454-465.

[14] Enchiridion Vaticanum, vol. 11, 1988-1989, n. 42-43, p. 1165-1166.

[15] Pace con Dio creatore, pace con tutto il creato. Messaggio del papa per la giornata della pace. Il Regno – Documenti, XXXV, n. 1, 1990, p. 1-4.

[16] SEDOC, v. 24, 1991, n. 36-38, p. 34-36.

[17] SEDOC, v. 24, 1991-1992, p. 642-646.

[18] Cf. SEDOC, v. 27, 1994-995, p. 9-15.

[19] Pontifício Conselho Cor Unum: Reflexões sobre o problema da fome, em “A fome no mundo: novo desafio e novos compromissos para a Igreja” (22/11/1988). Enchiridion Vaticanum, v. 11 – Documenti ufficiali della Santa Sede 1988-1989. Bologna: EDB, 1991, p. 974.

[20] Pontifício Conselho Cor Unum sobre a fome: SEDOC, v. 29, 1966-1997, p. 398-455.

[21] Cf. SEDOC, v. 36, 2003-2004, p. 479-480.

[22] Bento XVI. Carta Encíclica Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na Caridade e na Verdade. São Paulo: Paulinas, 2009; cf. Il Regno-doc., n. 15, 2009, 457-490.

[23] Responsabilidade cristã para justiça no mundo. Cf. SEDOC, março de 1972, col. 1076.

[24] Enchiridion Vaticanum, vol. 16 – Documenti ufficiali della Santa Sede, 1977. Bologna: EDB, 1999, p. 1189-1190, n. 21-22.

[25] Cf. Il Regno-Documenti, n. 11, 2009, p. 381-383.

[26] Cf. Mensagem de Paulo VI à Conferência sobre o Ambiente (01/06/1972), na qual o Papa insiste sobre o destino universal dos bens da natureza.

[27] Veja o Texto Base da CF-1979 Por um mundo mais humano, p. 6-18.

[28] Veja CNBB. Campanha da Fraternidade de 2007: Fraternidade e Amazônia. Texto-Base. São Paulo: Ed. Salesiana, 2007.

[29] Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documentos da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 73-224.

[30] Santo Domingo – 1992. Nova Evangelização, promoção humana e cultura cristã. “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Documentos do CELAM. Rio, Medellín, Puebla e Santo Domingo. Documento da Igreja, vol. 8. São Paulo: Paulus, 2004, p. 585-782.

[31] SERRANO, Ramon Cazallas. A conferência de Santo Domingo, 1992, em pelos caminhos da América. Os desafios da Missão à luz das Conferências do CELAM. São Paulo: Missões, 2007, 26-33.

[32] Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo: Edições CNBB, Paulus, Paulinas, 2007.

[33] Faltou citar Gn 8,21-22 e 9,12-17!

Frei Ludovico Garmus
Instituto Teológico Franciscano
Petrópolis, RJ
Extraído de http://servicioskoinonia.org/relat/402.htm acesso em 9 maio 2010.

04 junho 2010

CAMPANHA PELA SANTIFICAÇÃO DO CLERO BRASILEIRO

O Papa Bento XVI, promulgou no dia 19 de junho de 2009 a 19 de junho do ano de 2010,
que a Igreja deverá comemorar o Ano Sacerdotal.


Lançamos aqui Interceções Espirituais pela Santificação do Clero.


Reze conosco.Nossas intenções serão estas:


- Que os sacerdotes celebrem em suas paróquias a Missa na forma
litúrgica exata e fiel. Sem abusos litúrgicos.

- Que os nossos sacerdotes não sejam coniventes e nem omissos e combatam, com sua pregação,
sua oração e com o seu apostolado o progressismo, o modernismo e o relativismo.
.

- Que os sacerdotes formem adequadamente as famílias, orientando-os
quanto a tudo o que a Igreja ensina a respeito de contracepção, moral
sexual, famílias numerosas.

- Que os sacerdotes se convertam em apóstolos do confessionário, equiparando
o tamanho das filas da comunhão às do confessionário.


- Que os sacerdotes favoreçam as práticas devocionais em consonância com a tradição
da igreja e pela exposição do Santíssimo Sacramento semanalmente sempre que possível.

Que os sacerdotes tenham uma boa vida de oração, rezem, façam
meditação, tenham terço diário, celebrem piedosa e diariamente a
Missa,


- Que os sacerdotes preguem a doutrina católica

- Que os sacerdotes sejam fiéis obedientes ao Magistério e
valorosos defensores do Papa.


Oremos
Que Santa Maria Mãe de Deus
e da Igreja Rogue pelos Sacerdotes da Igreja de Cristo,

levando-os a plenitude santificadora, assim estes
estejam sempre conduzindo o povo de Deus,
os seus filhos a verdade que liberta,
Amém





03 junho 2010

Corpus Christi !





Corpus Christi (expressão latina que significa Corpo de Cristo) é uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia.
É realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes.
É uma festa de 'preceito', isto é, para os católicos é de comparecimento obrigatório participar da Missa neste dia, na forma estabelecida pela Conferência Episcopal do país respectivo.
A procissão pelas vias públicas é para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo.
A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao Século XIII.
A Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado.
A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264 .

Saudação à Virgem Maria

(Esta saudação tão singela deixa entrever a grande veneração de São Francisco pela Virgem Maria, sua Mãe e Senhora, cuja capelinha: "da Porciúncula" - Nossa Senhora dos Anjos - fora o berço da Ordem e se conservou, através dos séculos, foco de piedade Franciscana).


Salve ó Senhora Santa, Rainha Santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo Santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu Santíssimo e
dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito.
Em vós residiu e reside toda plenitude da graça e todo o bem.


Salve, ó palácio do Senhor!
Salve, ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó mãe do Senhor!


E salve vós todas, ó santas virtudes derramadas,
pela graça e iluminação do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis, transformando-os de infiéis
em fiéis servos de Deus!


Amém.



27 maio 2010

"ORAÇÃO DE JOÃO PAULO II A SÃO FRANCISCO DE ASSIS"

Ó São Francisco, estigmatizado do Monte Alverne, o mundo tem saudades de ti qual imagem de Jesus crucificado. Tem necessidade do teu coração aberto para Deus e para o homem, dos teus pés descalços e feridos, das tuas mãos transpassadas e implorantes. Tem saudades da tua voz fraca, mas forte pelo poder do Evangelho.

Ajuda, Francisco, os homens de hoje a reconhecerem o mal do pecado e a procurarem a sua purificação na penitência. Ajuda-os a libertarem-se das próprias estruturas de pecado, que oprimem a sociedade de hoje. Reaviva na consciência dos governantes a urgência da Paz nas Nações e entre os Povos. Infunde nos jovens o teu vigor de vida, capaz de cotrastar as insídias das múltiplas culturas da morte.

Aos ofendidos por toda espécie de maldade, comunica, Francisco, a tua alegria de saber perdoar. A todos os crucificados pelo sofrimento, pela fome e pela guerra, reabre as portas da esperança. Amém.

24 maio 2010

São Francisco de Assis: Protetor dos animais

O "pobrezinho de Assis", como Francisco era chamado, foi uma criatura de paz e de bem, terno e amoroso. Amava os animais, as plantas e toda a natureza. Poeta, cantava o Sol, a Lua e as Estrelas. Sua alegria, sua simplicidade, sua ternura lhe granjearam estima e simpatia tais que fizeram dele um dos santos mais populares dos nossos dias. Ficou conhecido como o protetor dos animais e, em 1979, foi proclamado pelo Papa João Paulo II como o "Santo Patrono dos Ecologistas".

Vejam uma linda mensagem dos nossos amigos animais:


22 maio 2010


     São Francisco de Assis rogai pela natureza e proteja-a   de  todo mal que o homem possa lhe fazer. Amém.

20 maio 2010

Francisco, o Santo-Alegria

 

Frei Hipólito Martendal

1. Introdução - Tenho a impressão de que em nossos dias fala-se mais em felicidade do que em alegria. Sinto certa apreensão, pois isso representa certa banalização mais abrangente. Você entra numa lojinha qualquer para comprar um par de meias, ou umas cuecas e já sorridente vendedora o trata por "meu amor". Ser amado e feliz passou a ser uma obrigação universal. Pobres dos melancólicos, dos abatidos, dos deprimidos! Felicidade parece-me algo tão beatífico! Lembra conquista definitiva, realização, plenitude.


2. São Francisco e a alegria - Francisco declara bem-aventurados os frades que vivem situações àquelas às quais o Evangelho qualifica de bem-aventuranças. Em geral são declarações dele a respeito de quem procede evangelicamente, como nas suas Admoestações diz: "bem-aventurado aquele que nada retém para si". Neste sentido encontrei - só nos escritos atribuídos a Francisco - 12 vezes a expressão bem-aventurado (s) e uma vez "felizes" como sinônimo de bem-aventurados. Na verdade são promessas de felicidade se os frades conseguirem realizar determinadas propostas evangélicas. Quando Francisco lida com o dia-a-dia de seus irmãos e refere-se às qualidades e virtudes para a boa vivência da fraternidade, para o sucesso na luta contra Satanás e a eficiência da evangelização, ele fala 19 vezes em alegria.


3. Alegria como virtude - Não é muito fácil transformar a alegria em virtude, pois alegria parece constituir-se apenas de uma emoção primária agradável, fruto da posse de coisas desejadas. O problema está naquilo que se deseja. A alegria do Tio Patinhas por encontrar mais uma mina de ouro não é virtuosa, pois é fruto de sua desmedida cobiça e poderá incentivar outros a se entregarem ao materialismo.
Francisco, por sua vez, acabara de romper com o pai ganancioso e com a riqueza de que podia usufruir na família. Procurava em seu íntimo uma forma de viver mais de perto o ideal do Evangelho e do modo de ser do próprio Cristo. Numa missa ouve aquela passagem na qual Jesus envia seus discípulos a pregar. Depois pede ao sacerdote que lhe explique a leitura. Diante do quadro dos enviados "sem bastão", sem dinheiro, sem reserva de pão, sem calçados", ocupados unicamente em pregar o Reino de Deus e a penitência, Francisco tem uma iluminação. Segundo Tomás de Celano, ele exclama: "É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que DESEJO DE TODO CORAÇÃO".
Ora, quem consegue conquistar "aquilo que deseja" de todo o coração, só pode experimentar uma alegria correspondente. É o que Jesus afirma ao comparar o Reino a um tesouro. Quem o encontrar abre mão de TUDO o que possui e, "cheio de alegria compra aquele campo" (Mt 13,44). Para chegar ao TESOURO, Francisco teve que perder tudo. Enquanto ia perdendo, já sentia o coração enchendo-se de alegria. A conclusão disso foi claríssima para ele: a alegria é o certificado de qualidade da evangelização. Só é bom discípulo e bom anunciador do Reino quem não conseguir esconder aos demais - por causa da alegria irreprimível - que ele encontrou algo realmente extraordinário.


4. Desdobramentos da alegria - São Francisco está a uns cinco meses de sua morte. Seu corpo reduziu-se a uma ruína humana. Não consegue mais escrever. O sofrimento físico é atroz e torturante. Dita assim mesmo um testamento com suas últimas recomendações. Depois pede que Frei Leão escreva o que ele tem a dizer sobre aquilo que considera ser a ALEGRIA PERFEITA. Francisco imagina duas situações. Na primeira chegam mensageiros anunciando sucessos inimagináveis de sua Ordem nos mais diversos recantos da Terra. "Digo-te - afirma ele - que em tudo isso não está a verdadeira alegria". Na segunda Francisco imagina-se numa emergência hipotética. Ele próprio, o fundador da Ordem, volta para o conventinho da Porciúncula, "sua" casa-mãe, todo machucado, esgotado pela fadiga e quase morto pela mais violenta nevasca. Bate muitas vezes na porta. Por três vezes, o porteiro abre, xinga Francisco de todas as formas. Conclui o santo: "Pois bem, se eu tive tido paciência e permanecer imperturbável, digo-te que aí está a verdadeira alegria, a verdadeira virtude e salvação da alma".
Por muito tempo, por mais que isso impressionasse, eu imaginava que era o tranvasar da expressividade dramática da alma latina, italiana, de Francisco. Mas, eis que em um de seus biógrafos encontrei a explicação. Francisco não se ligava no conteúdo da ofensa de quem o agredia. Concentrava-se na desordem do coração e pecado do ofensor. Em vez de ficar ofendido, enchia-se de cuidados e compaixão pelo irmão agressivo.


5. Pretensão - Deus e Jesus Cristo tornam-se cada vez mais a única e avassaladora paixão de São Francisco. No altar desta paixão, ele sacrifica tudo, inclusive todos os outros possíveis projetos e desejos. É isso que ele entende por POBREZA. Sobra só um desejo irresistível: imitar em tudo seu Cristo-Paixão, sem sofrer menos que Ele "pela salvação de todos". Assim, Francisco desenvolveu uma blindagem protetora contra todas as adversidades, todas as injustiças, toda forma de sofrimento. Todo sofrimento é sempre invadido pela luz e significado que brotam de seu CRISTO-MODELO. Ocorre uma verdadeira transubstanciação da dor e do sofrimento. Adquirem uma nova natureza. Aí fica difícil saber onde termina Francisco e onde começa Cristo. Nesta comunhão, os contornos e as figuras de ambos se embaralham nossos olhos. Então toda sorte de sofrimentos simplesmente o fazem sentir-se mais perto, mais identificado com seu divino mestre e modelo, sua única paixão. Isso realimenta e purifica sua indefectível alegria.

Por isso seus contemporâneos afirmavam que Francisco era outro Cristo.

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/hipolito/artigos_27.php acesso em 27 abr. 2010.

18 maio 2010

A Carta da Terra



O texto a seguir, da CARTA DA TERRA, cujo aniversário de 10 anos de lançamento foi comemorado no último dia 22 de abril, é bastante longo, porém vale a pena ler. O site da Carta em português é: http://www.cartadaterrabrasil.org/
Videos da Carta da Terra no Youtube: existem muitos videos sobre a Carta na Internet e no Youtube, em particular. Um dos mais completos está dividido em 3 partes, cujos links vão a seguir. Parece-me ser ótimo para abordagem nas formações da OFS em todos os níveis.

 1a. parte2a. parte - 3a. parte

--------------------- CARTA DA TERRA --------------

O texto da Carta da Terra

PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.

TERRA, NOSSO LAR

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, é viva como uma comunidade de vida incomparável. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A SITUAÇÃO GLOBAL

Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, esgotamento dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e a diferença entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causas de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

DESAFIOS FUTUROS


A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais em nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem supridas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais e não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos no meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções inclusivas.

RESPONSABILIDADE UNIVERSAL

Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com a comunidade terrestre como um todo, bem como com nossas comunidades locais. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual as dimensões local e global estão ligadas. Cada um compartilha responsabilidade pelo presente e pelo futuro bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade em relação ao lugar que o ser humano ocupa na natureza.

Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, interdependentes, visando a um modo de vida sustentável como padrão comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos e instituições transnacionais será dirigida e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA

1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interdependentes e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.

2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais, vem o dever de prevenir os danos ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
b. Assumir que, com o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder, vem a
maior responsabilidade de promover o bem comum.


3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos os níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada pessoa a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a obtenção de uma condição de vida significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.


4. Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra a longo prazo.


II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA

5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial atenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida.
a. Adotar, em todos os níveis, planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável que façam com que a conservação e a reabilitação ambiental sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger reservas naturais e da biosfera viáveis, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçados.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que
causem dano às espécies nativas e ao meio ambiente e impedir a introdução desses
organismos prejudiciais.
e. Administrar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam às taxas de regeneração e que protejam a saúde dos ecossistemas.
f. Administrar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que minimizem o esgotamento e não causem dano ambiental grave.


6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.
a. Agir para evitar a possibilidade de danos ambientais sérios ou irreversíveis, mesmo quando o conhecimento científico for incompleto ou não-conclusivo.
b. Impor o ônus da prova naqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que as partes interessadas sejam responsabilizadas pelo dano ambiental.
c. Assegurar que as tomadas de decisão considerem as conseqüências cumulativas, a longo prazo, indiretas, de longo alcance e globais das atividades humanas.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar atividades militares que causem dano ao meio ambiente.


7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com moderação e eficiência no uso de energia e contar cada vez mais com fontes energéticas renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias
ambientais seguras.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam às mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.


8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, permaneçam disponíveis ao domínio público.


III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA

9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.
a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, alocando os recursos nacionais e internacionais demandados.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma condição de vida sustentável e proporcionar seguro social e segurança coletiva aos que não são capazes de se manter por conta própria.
c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem e habilitá-los a desenvolverem suas capacidades e alcançarem suas aspirações.


10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e liberá-las de dívidas internacionais onerosas.
c. Assegurar que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais
atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas
conseqüências de suas atividades.


11. Afirmar a igualdade e a eqüidade dos gêneros como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e o carinho de todos os membros da
família.


12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.

a. Eliminar a discriminação em todas as suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas com condições de vida sustentáveis.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu
papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.


IV. DEMOCRACIA, NÃO-VIOLÊNCIA E PAZ

13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparência e responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à justiça.
a. Defender o direito de todas as pessoas receberem informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que possam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações interessados na tomada de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de reunião pacífica, de associação e de oposição.
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos judiciais administrativos e independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.


14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
a. Prover a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no aumento da conscientização sobre os desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma condição de vida sustentável.


15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimento.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.

16. Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para administrar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até o nível de uma postura defensiva não-provocativa e converter os recursos militares para propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em
massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico ajude a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.


O CAMINHO ADIANTE


Como nunca antes na História, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa destes princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.

Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável nos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global que gerou a Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca conjunta em andamento por verdade e sabedoria.

A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Entretanto, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade tem um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.

Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacionalmente legalizado e contratual sobre o ambiente e o desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação dos esforços pela justiça e pela paz e a alegre celebração da vida.

15 maio 2010

Domingo, dia 16 de maio, às 11h30 Catedral Metropolitana de Sorocaba

ramos Papa no Domingo de Ramos 2010

para o Regina Coeli

Queremos ficar juntos com Bento XVI, como filhos juntos do pai, desejosos de apóia-lo em seu ministério, exprimindo afeto e gratidão pela sua paixão por Cristo e pela humanidade inteira, em sintonia com associações e movimentos que estarão reunidos, neste dia, em Roma e em outras cidades do Brasil e do mundo.

Nestes momentos difíceis, entregamos nas mãos de Maria a nossa fidelidade ao Santo Padre pedindo para o bem da Igreja, na qual fazemos a experiência da misericórdia, única resposta adequada à necessidade de justiça que emerge do coração de cada um.

Guia-nos a humilde certeza testemunhada pelas palavras do próprio Papa: “É na comunhão da Igreja que encontramos a pessoa de Jesus Cristo, ele mesmo vítima de injustiça e de pecado. Ele carrega ainda as feridas do seu injusto padecer".

CONVIDAMOS A TODOS

Para esta celebração na Catedral Metropolitana de Sorocaba, quando iremos participar de um gesto unitário da Igreja, ouvindo testemunhos sobre o significado da pessoa do Papa para a nossa vida de fé, terminando com a santa missa.

Organização: Comunhão e Libertação

Apoio: Movimentos, Associações e Pastorais da Igreja Católica

Clara, defensora de Assis

 
Por Frei Vitório Mazzuco Filho

Conta-nos a Legenda de Santa Clara, no parágrafo 23: "Em outra ocasião, Vital de Aversa, homem cobiçoso de glória e intrépido nas batalhas, moveu contra Assis o exército imperial, que comandava. Despiu a terra de suas árvores, assolou todos os arredores e acabou pondo cerco à cidade. Declarou ameaçadoramente que de nenhum modo se retiraria, enquanto não a tivesse tomado. De fato, já havia chegado o ponto em que se temia a queda iminente da cidade.
Quando Clara, a serva de Cristo, soube disso, suspirou veementemente, chamou as Irmãs e disse: "Filhas queridas, recebemos todos os dias muitos bens desta cidade. Seria muita ingratidão se, na hora em que precisa, não a socorrêssemos como podemos".
Mandou trazer cinza, disse às Irmãs que descobrissem a cabeça. E, primeiro, espalhou muita cinza sobre a cabeça nua. Colocou-a depois também sobre as cabeças delas. Então disse: "Vão suplicar a nosso Senhor com todo o coração a libertação da cidade".
Para que contar detalhes? Que direi das lágrimas das virgens, de suas preces "violentas"? Na manhã seguinte, Deus misericordioso deu a saída para o perigo: o exército debandou e o soberbo, contra os planos, foi embora e nunca mais oprimiu aquelas terras. Pouco depois o comandante guerreiro foi morto a espada".
E, também, lemos no Processo de Canonização, nº 14: "A testemunha também disse que, temendo as Irmãs a chegada dos sarracenos, tártaros e outros infiéis, pediram à santa madre que insistisse muito diante do Senhor para que o mosteiro fosse defendido contra eles. E a madre santa lhes respondeu: " Irmãs e filhas minhas, não fiquem com medo, porque o Senhor as defenderá. E eu quero ser a sua garantia. Se os inimigos chegarem até o mosteiro, coloquem-me diante deles". Assim, pelas orações de tão santa madre, o mosteiro, as Irmãs e os objetos não sofreram dano algum".
Estamos em Assis entre 1239 e 1241. Há tensão na cidade. Cavaleiros, mercadores, voluntários, populares, soldados, todos se posicionam para defender a cidade que tanto amam. Às portas da cidade se acampam os guerreiros sarracenos comandados por Frederico II, que se bate contra os "minori", conseqüentemente contra o Papa. No dia 3 de junho de 1239 acontece um eclipse do sol, um fenômeno natural; mas o povo interpreta de um modo apocalíptico aquela escuridão que permite ver estrelas de dia. O medo sempre antecipa o fim do mundo.
No mosteiro de São Damião, Clara e suas Irmãs rezam pela cidade. A prece e penitência contra as armas da guerra. Aquele lugar seguro de paz pode virar fortaleza de combate.
Na Ordem dos Frades Menores, Frei Elias quer mediar o conflito entre o exército imperial e o exército pontifício, escreve uma carta e encarrega o Geral da Ordem, Frei Alberto de Pisa, para entregar ao Imperador. Um frade é usado como mensageiro e desaparece no caminho juntamente com o documento. O Papa não aceita que Frei Elias tenha dirigido-se ao Imperador e excomunga-o. A Ordem sofre com isso e Clara também.
O momento é grave, o conflito é grave e a saúde de Clara é frágil. Sua vontade é que está forte, firme e resistente. A hora da provação é a grande oportunidade de reanimar a fé em São Damião e em todo o povo de Assis.
Vital de Aversa comanda com crueldade o exército de Frederico II. Ali ajuntam-se mercenários, muçulmanos, guardas imperiais, bandoleiros, tártaros, sarracenos. É um momento de pilhagens, ruínas, prisões, incêndios, violência que arrasa igrejas, mosteiros, castelos, casas e burgos. Clara monta guarda com professas e noviças. Pela palavra e pelo exemplo é a hora da mais fervorosa oração. Oração de mãe é segurança e proteção.
Já haviam destruído os mosteiros de São Bento de Satriano, Santo Angelo de Panzo e São Vitorino de Tescio. Será que chegara a hora de São Damião? Será que era o momento do martírio?
O ideal de Francisco e a paz que vem do Evangelho estão postos à prova. Clara ama o mosteiro, suas Irmãs e Assis. É hora de oferecer-se por todos. Clara chama as Irmãs, abençoa cada uma com o sinal da cruz. As tropas que estão nas portas do mosteiro jamais poderão vencer este escudo de amor e oração.
Pede que se busque a caixa de marfim onde está o Santíssimo Sacramento. Pede ao Senhor que guarde e proteja as Pobres Damas e a cidade a elas confiada. Com a força do espírito, o rosto resplandecendo da beleza da graça, Clara segura firme a Hóstia e vai em direção aos invasores. Os soldados surpreendem-se com a presença da frágil mulher mostrando o sacramento da sua fé, afastam-se surpresos entre pavor e misteriosa reverência. É um verdadeiro milagre! Toda a cidade de Assis comenta no outono inteiro. O coração pleno de amor e cuidado, a presença convicta de mãe Clara afastara todo perigo.
Conta-nos Frei José Carlos Pedroso no seu livro Santa Clara de Assis: "Por causa desse fato, até hoje as figuras mais comuns de Santa Clara mostram-na como uma freira segurando uma custódia. Custódia é aquela roda dourada, cheia de raios, que se usa nas adorações e nas procissões do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Mas as Irmãs que assistiram ao fato disseram que a Eucaristia foi levada em uma caixinha de marfim e prata, como era comum naquele tempo. As custódias ainda não estavam em uso".
Não importa se era um ostensório, uma custódia, uma caixinha de marfim, o que importa é que São Damião e Assis foram salvos pela oração de libertação: prece, penitência, cinza na cabeça e a certeza da presença do Cristo Eucarístico. O certo é que até hoje a cidade de Assis, no dia 21 de junho, faz a Festa del Voto, pois acredita que ali houve o milagre e a certeza de que não é possível derrotar uma mulher e um povo que crê!

Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/vitorio/artigo_04.php acesso em 27 abr. 2010.

Ilustração: Santa Chiara d'Assisi scaccia i Saraceni, c. 1630. Dal Monastero di Santa Chiara. Museo di Stato di San Marino. Foto di Stefano Bolognini, 2008. Extraído de http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anonimo_-_Santa_Chiara_scaccia_i_saraceni_-_1630_-_San_Marino.JPG acesso em 27 abr. 2010.

14 maio 2010















"A DEVOÇÃO MARIANA DE SÃO MAXIMILIANO"

A vida é um dom de Deus e precisamos vivê-la como tal, pois, é para o encontro definitivo com o Senhor que estamos indo. Vivemos em meio ao Mistério da Criação como parte integrante de um Grande Plano de Amor que transcende o nosso entendimento; e para além do somos ou podemos, temos que cooperar de bom grado com esse Plano Divino a nosso favor. A Sagrada Escritura nos revela que somos “imagem e semelhança de Deus”, e certamente ainda não nos damos conta disso, dada à finitude que nos cerca e mesmo o que aparentamos ser.

São Maximiliano Maria Kolbe é um santo dos tempos atuais profundamente imbuído da vivência desse Plano Salvífico do Senhor para toda a humanidade. Desde a infância a “Mão do Senhor” já delineava o que haveria de ser esse filho e como daria o seu testemunho de sangue perante toda a criação. A experiência de fé polonesa passa, indubitavelmente, pelas mãos da Virgem Mãe, que além de Padroeira da Polônia e dos poloneses, é ainda padroeira de tantos outros países devotos que a ela recorrem para que interceda junto ao seu Filho, a fim de que sejamos prontamente atendidos em nossas necessidades e para que se cumpra em tudo a Santa Vontade de Deus em nossa vida.

Contam os biógrafos que o pequeno Raimundo Kolbe (nome de batismo de são Maximiliano) era de índole esperta e por isso mesmo um tanto travesso. Certa feita em uma de suas travessuras sua mãe, um pouco incomodada, o chamou a atenção dizendo-lhe: “Menino, o que será de sua vida?” Ao que, como de costume, o menino correu junto ao oratório em um dos cômodos de sua casa para rezar e perguntar em sua inocente oração à Virgem Imaculada o que seria de sua vida. Obteve como resposta a aparição da Santíssima Mãe do Senhor mostrando-lhe duas coroas, uma branca e outra vermelha - as mesmas cores da bandeira da Polônia, sua pátria amada e também as cores do Espírito Santo, doador de todos os dons - perguntando-lhe qual das duas queria para si. Ao que o pequeno infante, depois de breve hesitação, respondeu: quero as duas. E foi precisamente assim que se definiu sua vocação, ser totalmente consagrado a Deus na vida religiosa e ser mártir da caridade pela Imaculada em defesa da família e da salvação do maior número de almas possíveis.

Desse modo, como Davi e a própria Virgem Maria, o Espírito do Senhor apoderou-se também do menino Raimundo e fez dele um grande santo de alma devotada à Vontade de Deus por meio da Imaculada, a quem se entregou, como ainda todo o seu ministério. Seu lema era: “Ganhar o mundo inteiro para Cristo pela Imaculada”. Por isso, se refugiava no Imaculado Coração da Virgem Mãe e com o auxílio de suas preces procurou servir ao Reino de Deus difundindo-o em todo o mundo, fazendo jus ao lema que escolhera para sua vida. Movido por um incondicional amor a Maria, fundou o movimento de apostolado mariano “Milícia da Imaculada”. Trabalhou incansavelmente na confecção do Cavaleiro da Imaculada, pequena revista de evangelização mariana; fundou ainda jornais, rádio; e tencionava fundar também canais de televisão para difundir a devoção à Imaculada, a fim de levar a cabo todo o empreendimento evangelizador que Deus lhe confiara.

Destarte, no fim dos seus dias, recebeu das mãos da Beatíssima Mãe a segunda coroa que lhe destinara Deus, o martírio no campo de concentração nazista Auschwitz, tomando o lugar de um pai de família que estava para ser sacrificado no Bunker da fome, assumindo assim, até as últimas conseqüências, sua vocação mariana, o martírio do amor incondicional; a certeza do céu, a realização do Plano de Deus, por meio do Seu Filho Jesus Cristo, Fruto Bendito da Virgem Imaculada.

“Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”. (São Maximiliano Maria Kolbe – 1894-1941).

Paz e Bem!

Frei Fernando,OFMConv.

12 maio 2010

Espiritualidade na Internet: o surgimento de uma nova religião?


Para Pedro Gilberto Gomes, a utilização da Internet por diversas instituições religiosas fomenta uma reflexão: que novas formas de religião ou de espiritualidade emergem desse processo?

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Na opinião do professor e pesquisador do PPG em Comunicação da Unisinos, Pedro Gilberto Gomes, as instituições religiosas ainda vêem a Internet como um “dispositivo tecnológico”. A partir do uso da Internet, explica, se cria um ambiente de midiatização, ou seja, uma espécie de “caldo cultural onde as coisas interagem”, surge um “novo patamar baseado numa lógica de inter-relação”. Nesta nova ambiência, acrescenta, “as instituições podem estabelecer novos tipos de relações” ao invés de utilizar a rede apenas como um meio para divulgar sua mensagem. Com base nisso, ele lança o questionamento: “Como as Igrejas, dentro desse ambiente, desse mundo interconectado, podem trabalhar no estabelecimento de vivência, de espiritualidade, de religião?”

Ao utilizarem a Internet apenas como um meio para alcançar mais fiéis, muitas instituições não estão refletindo sobre que espiritualidade está sendo gerada a partir desse processo. Na avaliação do pesquisador, “o simples fato da pessoa se relacionar via portal já está criando uma forma de espiritualidade ou uma forma de ver religião diferente. Isso é o que deve ser questionado. Esses são os desafios e perspectivas”. O uso da Internet desacompanhado de uma reflexão mais profunda pode trazer alguns riscos e gerar efeitos desconhecidos ou indesejados. “O desejo de incentivar a solidariedade, as pessoas a rezarem, pode, ao invés disso, fazer com que elas formem um Deus a sua imagem e semelhança, pode incentivar o individualismo, as pessoas podem fazer a sua própria religião”, conclui.

Pedro Gilberto Gomes irá ampliar este debate no IHU ideias do dia 8-4-2010, onde discute Espiritualidade via Internet: desafios e perspectivas. O encontro acontece na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU, às 17h30min.

Pedro Gilberto Gomes é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, e especialista em Teologia pela Universidade Católica de Santiago, no Chile. Mestre e doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo - USP. Entre suas obras, destacamos Filosofia e ética da comunicação na midiatização da sociedade (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006), Comunicação e governabilidade na América Latina (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2008) e Midiatização e processos sociais na América Latina (São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.

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Pedro Gilberto Gomes

IHU On-Line - Em linhas gerais, o que o senhor pretende abordar ao relacionar espiritualidade e Internet? Essa relação funciona?

Pedro Gilberto Gomes – Existem vários sites de organizações católicas ou não, que usam a Internet como um espaço de interação, de congregação das pessoas. Essas instituições consideram, por exemplo, a Internet um meio importante para passar a sua mensagem. Alguns sites disponibilizam as leituras dominicais, velas virtuais, enfim, há todo um arcabouço de ações litúrgicas que são veiculadas a partir dos portais. Essa é uma concepção de dispositivo tecnológico, ou seja, antigamente, determinadas atividades eram realizadas na Igreja e, hoje, também estão disponíveis na Internet.

Participei de uma defesa de dissertação de mestrado em Santa Maria, em que a estudante analisava o site da Canção Nova (www.cancaonova.com). Neste portal, no link de Liturgia, é possível escolher ler apenas as leituras ou os sermões. O conteúdo está fragmentado, e o internauta pode montar sua própria missa. Muitos pensam que essa é uma maneira de chegar na residência das pessoas com maior possibilidade. Mas, a partir disso, me pergunto: que tipo de espiritualidade está sendo criada, gestada? Não estou pensando na instituição Igreja, mas sim que a vivência religiosa, a espiritualidade como um todo, é uma produção simbólica fundamental na vida do homem. Essa religiosidade é importante. Agora, quando as instituições religiosas fazem uso massivo desses novos ambientes, temos de nos perguntar que tipo de religiosidade, espiritualidade está surgindo desse processo. Que diferença existe entre acender uma vela para o padre Reus num site, ou ir até o santuário? Esse é o questionamento. É um desafio que se tem de responder. Ouvir o sermão do padre na Internet tem o mesmo significado de ouvi-lo na Igreja? Na missa há outro ambiente. Não estou dizendo que isto é bom ou ruim. Estou questionando que tipo de espiritualidade esses espaços virtuais estão criando. É esse ambiente de midiatização que está trazendo desafios para nós. Então, não se deve perguntar como uma instituição usa um portal para fomentar a espiritualidade. Isso não importa. Tenho de perguntar: ao fazer isso, que forma de espiritualidade está sendo formada? É por ai que vou esboçar alguma coisa no evento.

IHU On-Line - As instituições religiosas têm a dimensão da riqueza que essa mídia proporciona? Ela consegue compreender o que significa hoje esse novo patamar?

Pedro Gilberto Gomes – Claro que elas têm. Todas as instituições perceberam e estão usando esse meio. Só que elas estão colocando nos portais, simplesmente, a transcrição do que elas já vinham fazendo. A Igreja faz celebração litúrgica presencial desde que foi criada. Com essa sofisticação tecnológica, ela reproduz a missa que era feita para um grupo pequeno nos portais, com o objetivo de atingir milhares de pessoas. As instituições perceberam a importância desses meios para divulgar a sua mensagem e promover as suas ações. Entretanto, o que elas não se perguntam – e que é o grande desafio –, é se, ao fazer essa transposição de suas ações milenares para um site de relacionamento, estão criando uma nova forma de espiritualidade independente do desejo delas, ou uma forma diferente de fazer e viver religião. Vou exemplificar: uma criança que, desde pequena, desenvolve a sua consciência religiosa de espiritualidade via Internet terá a mesma vivência religiosa de uma criança que participa da catequese, que vai à missa com os pais? Essas são formas iguais ou diferentes de fazer religião? De ter espiritualidade? E quando digo isso, novamente, não estou afirmando que uma é boa e outra é ruim. Estou apontando a existência de dois níveis de diferença. Que tipo de espiritualidade emerge de um portal? Isso vai além do conteúdo.

IHU On-Line – A partir do uso da tecnologia e da Internet, as pessoas podem, também, ter uma relação mais individualista com a sua espiritualidade?

Pedro Gilberto Gomes – Vou usar a palavra individualista, mas sem dar a conotação de juízo moral. Por exemplo: se um jovem passa parte do seu tempo navegando na Internet, se todas as suas relações amorosas acontecem no ambiente virtual, dizemos que ele está vivendo uma ilusão e precisa de acompanhamento. Mas, por outro lado, se o jovem não tem nenhuma vivência religiosa a não ser a virtual, achamos isso normal. Há muitos anos, foi feita uma pesquisa com jovens paulistas que jogavam vídeo-game. Percebeu-se que não era o conteúdo do vídeo-game que estava mudando a vida destes jovens, mas o simples fato de jogar mudava a lógica do raciocínio deles. Para esses jovens, o fato de alterar essa lógica linear (início, meio e fim) não representa nenhum problema, porque esse é o modo de raciocínio do jogo. Então, o que está em questão não é o modelo do jogo.
McLuhan já dizia, na década de 60: o que muda o comportamento das pessoas não é o conteúdo da televisão, mas o simples fato de ver televisão. Na vivência das espiritualidades, é essa realidade que as instituições religiosas não estão percebendo porque, para elas, o importante sempre foi a mensagem. E tudo aquilo que ajuda a levar a mensagem para um maior número de pessoas é bom. Então, o que muda é a mensagem. O instrumento é completamente neutro.
Se questionarmos mais profundamente para além do instrumento, vamos perceber que, independente do conteúdo, o fato de ele entrar no relacionamento já está criando um novo tipo de religião, de espiritualidade, porque mesmo a religiosidade não é unívoca. Na Igreja Católica, há setores que vão de A a Z, da extrema direita, de um espiritualismo total, até a extrema esquerda. Quem ainda faz isso está num ambiente do passado. O ambiente atual está exigindo outra coisa e nos faz considerar que, independente da mensagem de extrema esquerda ou da extrema direita, o simples fato da pessoa se relacionar via portal já está criando uma forma de espiritualidade ou uma forma de ver religião diferente. Isso é o que deve ser questionado. Esses são os desafios e perspectivas. Então, muito menos respostas e muito mais questões é que eu vou colocar na palestra.

IHU On-Line - Quais os riscos de uma possível ingenuidade da Igreja ao fazer uso da Internet sem se dar conta das suas potencialidades e consequências?

Pedro Gilberto Gomes – O risco é ter uma intenção, essa não ser concretizada e ainda gerar um efeito desconhecido ou indesejado. O desejo de incentivar a solidariedade, as pessoas a rezarem, pode, ao invés disso, fazer com que elas formem um Deus a sua imagem e semelhança, pode incentivar o individualismo, as pessoas podem fazer a sua própria religião. A Canção Nova, quando, em seu site, divide a missa, está iniciando uma consequência que não pode ser mensurada. A missa tem uma dinâmica, uma lógica e um movimento que forma um conjunto. A partir do momento em que, num portal, é feita uma partição dessa missa, a pergunta é: que tipo de missa é essa?
Vou dar outro exemplo: Partenia é uma diocese virtual (www.partenia.org). Um bispo francês perdeu a sua diocese em função de um problema com o Vaticano. Para continuar exercendo a função de bispo, o Vaticano o nomeou como bispo de Partenia, que foi uma diocese da Ásia Menor, a qual acabou há dois mil anos. Os amigos queriam saber o que era a tal Partenia, e ele explicou que se tratava de uma diocese “virtual”. A partir disso, os amigos dele tiveram a ideia de criar uma diocese na Internet. O site deles funciona em espanhol, alemão, francês, inglês e português e tem fiéis no mundo todo. No momento em que eles criam uma diocese virtual e que esse bispo começa a interagir com todas essas pessoas, que religião emerge desse processo? Que Igreja é essa? Que tipo de religiosidade nasce? Se não nos preocuparmos com isso, estaremos gerando efeitos desconhecidos, e, por via das vezes, contrários ao que desejamos. Não sou contra esses sites, acho que eles são importantes, mas precisamos refletir sobre essas questões.

Religião, (des)religião, (re)religião

McLuhan falava que a história da humanidade poderia ser dividida a partir da história dos meios de comunicação e, que, no início, pelo gregarismo, as pessoas humanas se uniram em tribos, onde havia a cultura oral e a transmissão da história da tribo era feita pelos anciões. Quando se inventou a escrita, que sinalizou um salto na história da humanidade, McLuhan diz que começou a destribalização porque as pessoas não dependiam mais dos anciões para contar histórias. O auge da destribalização foi a invenção dos tipos móveis por Gutemberg. Com a eletricidade e os meios eletrônicos, McLuhan disse que houve uma comunidade verbo-oral que criou uma retribalização. Só que esse processo, essa aldeia global, se dá num nível diferente do passado, ou seja, não significa retomar o que já existiu. Nós vivíamos num mundo fechado de espiritualidade, o mundo fragmentou, e as pessoas estão em todos os lugares. Agora, estamos retomando, via esses mecanismos de portal, a religiosidade. Então, fazendo um neologismo: religião, (des)religião, (re)religião. Entretanto, este modo simbólico de relacionamento, que está sendo retomado via esses meios para poder congregar as pessoas que estão dispersas, cria uma religião diferente da primeira. Não se trata simplesmente de uma repetição, uma retomada. Todas as experiências que tentaram retomar, fracassaram.

IHU On-Line – A retomada a partir dos meios digitais pode dar certo?

Pedro Gilberto Gomes – Não sei. Só sei que se trata de outra realidade, de outra ambiência, portanto é uma nova vivência religiosa, de espiritualidade.

IHU On-Line – O que podemos entender por midiatização e como relacionar este conceito com a espiritualidade?

Pedro Gilberto Gomes – Esse mundo da sociedade de midiatização está criando uma espécie de gloretribalização, esse mundo está proporcionando uma nova ambiência que está criando novos espaços de relacionamento em termos geral. Essa rede em que as pessoas estão interconectadas está criando novos espaços de relacionamentos, novos espaços de espiritualidade. Isso coloca um desafio para nós. Volto a dizer: as Igrejas não estão preparadas para isso. O que elas conseguem compreender é o fato de ter uma vivência que foi fragmentada por uma série de motivos, e agora ela usa esses meios para recongregar as pessoas. Só que eles querem fazer com que as pessoas retornem ao estado que acontecia anteriormente. E essa recongregação acontece em outro nível, outro estágio. Nós estamos em pleno processo de “salto” e não sabemos aonde vamos cair, mas é certo que vamos para um lugar distinto do qual queremos ir. Lançamos, mas ainda não chegamos ao outro estágio. Dessa nova ambiência, dessa nova espiritualidade e desse novo modo de fazer religião estamos - usando uma expressão poética - levantando a fímbria do manto. Ainda não sei tudo que tem do outro lado.

IHU On-Line – Podemos dizer que a lógica da midiatização ainda não é compatível com a lógica dessas instituições?

Pedro Gilberto Gomes – Poderia dizer isto: estamos vivendo uma nova lógica, que não é simplesmente a retomada da lógica tradicional. Gosto de dizer que começamos a viver uma nova ambiência, e quando as Igrejas entram para esses meios, elas pensam que os meios são apenas dispositivos tecnológicos e, portanto, elas estão pensando que devem retomar as pessoas e trazê-las para sua ambiência. Acontece que a ambiência que essa realidade está criando é outra e não a passada. Essa é a questão.

IHU On-Line - Como as teorias de Teilhard de Chardin (a noosfera, por exemplo), podem contribuir para a compreensão do fenômeno da espiritualidade via Internet?

Pedro Gilberto Gomes – O que Teilhard de Chardin diz é que estamos num processo de evolução. Todo o mundo está evoluindo. O homem é um dos estágios dessa evolução, mas ela continua. Essa evolução da complexidade, ele diz que o homem o faz também através do desenvolvimento da técnica. Então, a técnica não é algo externo. Nessa caminhada em direção ao Ponto Ômega, essa unidade total, Teilhard diz que toda a técnica se articula com o ser humano e ela é expressão dessa unidade. Esse supercérebro que ele cita é justamente uma conjugação de todos os cérebros da humanidade, formando esse cérebro único num desenvolvimento. A técnica está intrinsecamente ligada ao ser humano e faz parte da humanidade. Claro que essa realidade vai fazer com que a minha forma de me relacionar com o transcendente, portanto, toda uma vivência religiosa, atinja outras dimensões que não essa atual.

IHU On-Line – Como a midiatização pode ajudar as instituições a construir uma rede de inter-relações?

Pedro Gilberto Gomes – Essa pergunta está partindo da antiga ambiência, porque a midiatização é vista como um dispositivo tecnológico que alguém pode manejar. E a relação é contrária: como as instituições, navegando dentro desse novo ambiente, podem estabelecer novos tipos de relação, e não utilizando isso para algo. Eu posso utilizar a mídia, mas a midiatização é o ambiente que se cria, é como se fosse um caldo cultural onde as coisas interagem, e as instituições estão ali dentro, trabalhando nesse novo ambiente no desenvolvimento dessa vivência espiritual e religiosa, que não deixa de ser uma construção simbólica, que se dá num novo patamar baseado numa lógica de inter-relação. Até porque as pessoas já estão ligadas. A pergunta é: como as Igrejas, dentro desse ambiente, desse mundo interconectado, podem trabalhar no estabelecimento de vivência, de espiritualidade, de religião. Então, a questão é: como as religiões podem se inserir no desenvolvimento de espiritualidade, que não é simplesmente a transposição de seus antigos processos mentais para a Internet? As instituições religiosas precisam mudar a ambiência ou pelo menos se questionar sobre isso.

Leia mais...
>> Sobre o tema, confira o Cadernos IHU em Formação número 35, intitulado Midiatização. Uma análise do processo de comunicação em rede.

Confira outra entrevista com Pedro Gilberto Gomes no nosso sítio (www.ihu.unisinos.br).
O impacto da midiatização na sociedade latino-americana. Entrevista publicada em 31-8-2008.


Extraído de IHU on-line. São Leopoldo. Ano 10, n. 323, 29 mar. 2010. P. 35-38. Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br//index.php?option=com_eventos&Itemid=26&task=evento&id=289&id_edicao=351
em 8 abr. 2010.

Ilustração: Illustration about new internet generation web2.0 / Peter Welleman. 2009. Disponível em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:InternetGeneration.jpg acesso em 8 abr. 2010.

Animais Domésticos

Os bichos de estimação, que também são conhecidos como animais domesticos, ganharam popularidade entre as pessoas, sendo que hoje é muito difícil encontrar alguma casa que não tenha um lindo cachorro ou outros animais de Estimação. Mas atenção, para se ter um bicho de estimação é preciso muita responsabilidade do dono, na medida em que muitas são as tarefas para cuidar de seu animalzinho, que é alimentar, limpar, tratar com um veterinário quando preciso, dar banho e manter o seu ambiente sempre limpo e organizado, pois os animais são seres vivos que necessitam da mínima condição de sobrevivência que os seres humanos necessitam. Além destes detalhes, um animal de estimação precisa receber carinho, atenção e de espaço para as suas atividades e necessidades, além de cuidar de sua beleza também.




 
Outro fator importante fica por conta das atividades físicas de alguns Animais, na medida em que existem determinadas Raças Cachorros que necessitam de bastante exercício no seu dia a dia, pois possuem uma certa facilidade para atingirem a obesidade, o que prejudicaria muito a Saúde de seu cão, se ele não seguir um cardápio saudável. Saiba que todos estes cuidados com os animais domésticos são de extrema importância, pois assim como nós seres humanos, eles são passiveis de emoções e sentimentos. Tanto é verdade, que um dos mais comuns animais de estimação, o cachorro, é denominado como o melhor amigo do homem, pois, além de ter sentimentos e necessitar de carinho e atenção, o cão sabe quando o seu dono necessita de uma companhia, e assim como as pessoas amigas, eles estão prontos para nos dar carinho e atenção.




Mas, infelizmente, a má notícia fica por conta das pessoas que não possuem o mínimo de cuidado com esses animais domesticos, sendo que os maltratam e até mesmo os descartam como Lixo nas ruas por não gostar mais do bicho. Isto ocorre geralmente quando o animal adoece ou atinge uma idade mais avançada, ficando co sua saúde debilitada. Portanto, quando se cogita a hipótese de adquirir um animal, devemos levar em consideração todas as informações sobre ele, como por exemplo, se ele for um Cachorro Grande, então necessitará de grandes espaços, se possuir muito pêlos, então deverá ser escovado com maior freqüência, e por aí segue a lista de Cuidado de Beleza e de saúde para com os animais de estimação.




Deve-se também levar em conta o espaço do ambiente que será disponibilizado para um bicho de estimação, pois, dependendo de seu tamanho, determinados lugares não serão indicados para a sua habitação, como por exemplo, em se tratando de Apartamento, então será indicado apenas Cachorro Pequeno Porte. Agora sim, se você está ligado nas dicas de cuidados para se ter um lindo bichinho de estimação, adote um Cachorro e faça do seu lar feliz com a presença encantadora desses animais domesticos.
                 São Francisco de Assis, rogai por todos os animais e para que eles recebam carinho e amor assim como eles são capazes de dar. Amém.